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Post de Colo__Letícia Thompson

Colo

Letícia Thompson

Pra dar colo é preciso pegar no colo?

Nem sempre.

Há pessoas que dão colo com as palavras, com o que elas carregam e transmitem. Elas reconfortam sem presença física, estando, apesar disso, presentes.

É possível se dar a alguém, ser importante, fazer importante, às vezes mesmo com um gesto aparentemente banal.

Estamos atravessando uma era em que as pessoas se encontram muito mais profundamente que antes. Elas se acarinham, se amam, se sustentam, amenizam a solidão e ajudam a curar feridas e secar lágrimas.

Distância? Não existe! Não é bem assim, ela existe, mas não percebemos. Eu estou aqui e estou aí ao mesmo tempo, da mesma maneira como meus amigos estão em toda parte e dentro de mim. A gente só alcança o que está perto, não?

Jesus atravessou séculos e ainda hoje nos pega no colo, ainda hoje falamos com Ele, choramos o calvário e a crucificação. Ainda hoje nos sentimos amados e podemos seguir Seu exemplo.

Quando você quiser abraçar alguém, dar colo, reconfortar e que seus braços não alcançarem essa pessoa… dê um telefonema, escreva uma carta, envie um e-mail!… Seu carinho vai chegar da mesma forma, com o mesmo calor.

Nunca duvide disso!…


* Escritora, nasceu  em Itapemirim, no Espírito Santo, dia 11 de fevereiro de 1964. Reside na Bélgica desde 1990.
“A saudade é uma prova, um certificado,
carimbado e assinado embaixo de que não
estamos inteiramente sós e nem vazios.
As pessoas vêm e vão e ficam assim se
prolongando em nós, existindo pela
eternidade do nosso caminho.”
Letícia Thompson

Post Canção das Mulheres_Lya Luft

Canção das mulheres

Lya Luft

 

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ”Olha que estou tendo muita paciência com você!”

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher.

“Um anjo vem todas as noites:

senta-se ao pé de mim, e passa

sobre meu coração a asa mansa,

como se fosse meu melhor amigo.

Esse fantasma que chega e me abraça

(asas cobrindo a ferida do flanco)

é todo o amor que resta

entre ti e mim, e está comigo.”

Lya Luft

Post_texto Rubem_Pássaros e urubus

Os pássaros e os urubus

- Uma parábola ecumênica -

Rubem Alves

Muitos e muitos milênios atrás, Deus Todo Poderoso cansou-se da vida que estava levando nos céus. Era muito monótono. As mesmas coisas de sempre. Lá todos andavam de maneira solene, falando baixo e curvando-se em reverências e mesuras. Os coros dos anjos que jamais desafinavam só cantavam Te Deums e Requiems. Eram magníficos. Mas mesmo o bonito, se repetido sempre, fica monótono que, como o nome indica mono + tono,  é “samba de uma nota só”… Deus pensou que seria muito aborrecido passar o resto da eternidade  nessa monotonia. Isso sem levar em consideração que eternidade não tem resto. Porque resto é uma coisa que acaba. E a eternidade não acaba. O que está para trás é do mesmo tamanho do que está para frente que, por sua vez, é do mesmo tamanho que a eternidade inteira, para confusão dos matemáticos. Aí, de repente, Deus foi possuído pelo espírito de um menino brincalhão. Resolveu mudar tudo. Como vocês sabem muito bem, Deus jamais faz o pior. Tudo o que ele faz é melhor. Assim, o que ele fez era muito melhor do que os céus que já existiam e eram sua morada. Sua primeira providência foi fazer uma faxina geral. Jogou nos porões inferiores do universo uns livros enormes de contabilidade que, segundo se dizia, seriam usados em acertos futuros. E pôs fogo. A fogueira dos ditos livros está queimando até hoje e pode ser vista diariamente ( menos nos dias de chuva ) redonda e vermelha, atravessando o firmamento. É o sol. “Ninguém tem crédito, ninguém tem débito” : é isso que está escrito na entrada desse lugar, muito embora o famoso poeta Dante Alliguieri, tivesse dito equivocadamente que o que estava escrito era “Deixai toda esperança vós que entrais”. Pobre Dante! Era míope e não via bem…

De fato, prá que livro de contabilidade onde se anotam débitos e créditos se criança não faz contabilidade? Criança esquece fácil. Criança gosta é de brinquedo. Assim Deus sonhou com uma brinquedoteca imensa e disse: “Haja brinquedos!” E foi assim que o universo veio a existir. O universo é a brinquedoteca de Deus.

O que Deus fez foi colocar um pedacinho dele mesmo ( ou será “dela mesma”? ) em cada coisa que criou. Deus se pôs nas flores, no arco-íris, nas nuvens, nos regatos, nos peixes,  nas árvores, nas frutas, no vento, nos perfumes, nos insetos, nas estrelas, só um pedacinho. Sabe aqueles vitrais maravilhosos das catedrais, feitos com milhares de pedacinhos de vidro colorido? Nenhum pedacinho, isoladamente, diz a beleza do todo. É preciso que todos os pedacinhos estejam juntos, nenhum é mais importante que o outro.

E Deus criou os pássaros, deliciosos brinquedos de asas. Símbolos da liberdade, eles voam. Símbolos da beleza, eles são de muitas cores e muitos cantos. Símbolos da paz de espírito, eles não têm ansiedades. Jesus até disse que deveríamos ser como eles…

Há pássaro de todo jeito: “amarelos canarinhos, com sete cores as saíras, pequeninas corruíras, escandalosos bem-te-vis, delicados colibris, pintassilgos e andorinhas, tico-ticos e rolinhas, pica-paus e cardeais, pássaros pretos e pardais, negros jacus e urubus… “

Todos lindos. Lindos por serem diferentes. Nas cores e nos cantos. Se fossem todos iguais seria um tédio? Todos amarelos? Todos verdes? Todos brancos?

Pois Deus, que é uno e múltiplo como o vitral da catedral,  Deus que ama as diferenças, criou pássaros de todas as cores para que eles, na sua diferença de cores e de cantos, formassem um vitral vivo em que a sua beleza aparecesse.

Aconteceu, entretanto, que uma raposa trocista, ao passear pela mata, viu um pássaro negro assentado sobre um galho e resolveu provocar a sua vaidade.

- “Bom dia senhor Urubu. Que lindas são as suas penas, tão negras! Confesso não haver visto outro pássaro que pudesse se comparar ao senhor em beleza. Se a beleza do seu canto se compara à beleza de suas penas o senhor é a Fênix dessas florestas, a revelação plena da beleza divina. Imagino que Deus diz aos seus ouvidos coisas que ele não diz aos ouvidos dos outros pássaros! Se Deus desejar falar aos mortais em linguagem de pássaro, estou certo de que o senhor será o seu porta-voz!”

O Urubu ficou encantado ao ouvir as palavras da raposa. E  acreditou. Os vaidosos sempre acreditam nas palavras  dos aduladores.

“- É isso mesmo”, o Urubu falou consigo mesmo. “Cada pássaro tem um pedacinho de Deus. Só um pedacinho. Mas eu, Urubu, tenho a plenitude da beleza divina. Assim sendo, por que perder o meu tempo ouvindo  o canto do sabiá, o canto do pintassilgo, o canto do canário?… O canto deles é uma nota solta. O meu canto é a sinfonia inteira! E é até perigoso que eles fiquem por aí, cantando livres pelas matas e jardins. Porque pode ser que um ouvinte tolo fique gostando do seu canto e assim, por amor à beleza pequena de uma nota, perca a beleza plena da sinfonia. É preciso que se saiba que o canto de todos os pássaros conduz ao meu canto! Para a glória de Deus!”

E foi assim que os Urubus começaram uma operação de guerra contra os outros pássaros, sob a alegação de que o seu canto desviava os demais bichos do pleno conhecimento da beleza divina. Espalhou-se pela floresta a palavra de ordem: “Todos os pássaros devem cessar o seu canto. Todos os pássaros devem cantar como os urubus. Fora do canto dos Urubus não há salvação!”

A passarinhada morreu de rir. Sabiás, pintassilgos e canários comentavam: “ Os Urubus devem ter enlouquecido…” E nem ligaram. Continuaram a cantar como Deus havia ordenado que cantassem.

Os Urubus, enfurecidos com a arrogância e presunção dos pássaros que não reconheciam a sua superioridade, reuniram-se em concílio e tomaram uma  decisão: “Se não cantam como nós,  porta-vozes  de Deus cantam contra nós, cantam contra Deus. E quem canta contra Deus não tem o direito de cantar”.

Mas que passarinho pode parar de cantar o seu canto? O pedacinho de Deus que mora em cada um não descansa. Quer cantar! E eles continuaram a cantar.

Os Urubus se puseram a campo em defesa da beleza divina e de sua própria beleza.  Começaram a perseguir os pássaros que se atreviam a cantar o canto que Deus lhes ensinara. Era a única forma de fazê-los calar. Alguns pássaros se calaram por medo de serem expulsos da floresta a bicadas. Foram então colocados num regime chamado de “silêncio obsequioso” pelos urubus. Ninguém entendeu o que “silencio obsequioso’  queria dizer. Mas ninguém discutiu. Com Urubu não se discute.  Silêncio, os pássaros sabiam o que era. Mas   “obsequioso” eles não entendiam. Segundo o dicionário “obséquio” quer dizer “benefício”, “benevolência”.  Que benefício ou benevolência existe em obrigar um pássaro a  cessar o canto que Deus lhe deu? Ou será que o tal “obsequioso” vem de “obséquias”, que quer dizer “funeral”? É possível. O fato é que muitos dos que insistiram em cantar o seu próprio canto foram entregues à raposa que, como se sabe, adora a carne tenra das aves…

O resultado foi que os pássaros de muitas cores e de muitos cantos fugiram daquela floresta sinistra. Foram em busca de outras florestas onde não houvesse Urubus e onde pudessem cantar todos os seus cantos, ao mesmo tempo, e diferentes,  para que assim se ouvisse a Grande Sinfonia.

Quanto aos Urubus, ficaram sozinhos na sua floresta. Os bichos que moravam lá se mudaram, porque  não aguentavam mais ouvir todo dia o mesmo canto monótono, sempre igual. Sem variações, sem contraponto, sem improvisações. Quanto a Deus não é preciso dizer que floresta Ele ou Ela passou a frequentar…

(Correio Popular, Caderno C, 07/12/2003.)

Dalva Agne_harmonia

Post texto LêdaYara_Ano Novo

ANO NOVO! VIDA NOVA?

Lêda Mello

Ano Novo vem surgindo nas vizinhanças do tempo. É uma época em que costumamos pensar nas experiências vividas neste ano que está se despedindo e fazemos as nossas propostas de vida para o novo ano que vem chegando. Um tempo propício para mudanças. Pensando nesta mensagem que escrevi para você, busquei uma sugestão de roteiro na sabedoria destas palavras :

“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado…
Resignação para aceitar o que não pode ser mudado…
E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

São Francisco de Assis

Mudar o que pode ser mudado requer, antes de tudo, decisão. Mas decisão é a metade do caminho. A outra metade fica por conta das atitudes. Elas é que farão acontecer as mudanças. Da mesma forma que a fé sem as obras é morta, decisão sem atitudes não acontece. Atitudes de mudanças requerem coragem e firmeza e este é um dos motivos de falharmos na execução das nossas propostas. Viver com o que já é conhecido é bem mais cômodo e, assim, acabamos deixando de lado as propostas de mudança, escolhendo viver e conviver com a mesmice da rotina já conhecida, embora ela seja causa de transtornos.

Escolhemos a maneira como queremos viver e isto não depende de fatores externos ou da vontade alheia. É coisa nossa. Personalíssima. Portanto, é de total responsabilidade nossa. Requer a compreensão de que quando escolhemos deixamos para trás o que haja sobrado da opção que fizemos, sem espaço para nos sabotarmos e nos deixarmos sabotar.

Aceitar o que não pode ser mudado, antes de resignação, requer a compreensão de que o que é o é por si mesmo, na sua essência. Pretender mudar a natureza do que quer que seja é uma luta inglória. Não está no âmbito do nosso poder. Aceitar-se e aceitar a vida com naturalidade são aprendizados que nos levam, com simplicidade, à aceitação do que existe fora de nós.

Saber distinguir o que pode ser mudado do que não pode é um pouco mais trabalhoso e São Francisco de Assis sabia do que estava falando quando pediu ao Senhor que lhe desse sabedoria. Requer uma varredura no que somos. É preciso humildade para que percebamos e aceitemos o que não está de acordo com os nossos pontos de vista. O fato (e os atos) de não usarmos de sabedoria para fazermos essa distinção leva-nos à falta de clareza e de realismo do que queremos de nós mesmos e dos outros. É assim que nascem a maioria das nossas insatisfações, decepções e desarmonias.

Ano Novo vem chegando. Um bom momento para as mudanças, de modo que a virada do ano não seja, apenas, uma data no calendário, mas um marco de virada na vida. Faça dessa data o ponto de partida para um real Novo Ano da sua história e tenha um Feliz Ano Novo. Aceite o desafio de ser você mesmo.

confraternização universal

Post MarthaMedeiros_oqueacontecenomeio

O que acontece no meio

Martha Medeiros

 

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco, mas a que nos revela a nós mesmos.

Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.

No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo.

Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos.

No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa.

Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte.

No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença.
Que adultos se divertem muito mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio.

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo).
Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo.

No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais. Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade. E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo.

ZERO HORA – 04/12/11

martha medeiros

Post Uma flor selvagem_Lya Luft

Uma Flor Selvagem

Lya Luft*

O amor é uma escultura que se faz sozinha.

É uma flor inesperada sem estação do ano para surgir nem para morrer. Vai sendo esboçada assim ao léo: aqui a sobrancelha se arqueia, ali desce a curva do pescoço, a mão toca a ponta de um pé, no meio estende-se a floresta das mil seduções.

Imponderável como a obra de arte, o amor nem se define nem se enquadra: é cada vez outro, e novo, embora tão velho.

Intemporal.

Planta selvagem, precisa de ar para desabrochar, mas também se move nos vãos mais escuros, em ambientes sufocantes onde rebrilham os olhos malignos da traição ou da indiferença, e a culpa o pode matar. O convívio é o exército do amor na corda bamba. Os corpos se acomodam, as almas se espreitam, até se complementam.

Mas pode-se cair no tédio – sem rede –, e bocejar olhando pela janela.

Inventamos receitas para que o amor melhore, perdure, se incendeie e renove… nem murche nem morra. Nenhuma funciona: ele foge de qualquer sensatez, como o perfume das maçãs escapa num cesto de vime tampado.

Se fossemos sensatos haveríamos de procurar nem amar, amar pouco, amar menos, amar com hora marcada e limites.

Mas o amor, que nunca tem juízo, nos prega peças quando e onde menos esperamos. Nunca nos sentimos tão inteiros como nesses primeiros tempos em que estamos fragmentados: tirados de nós mesmos e esvaziados de tudo o mais, plenos só do outro em nós. Sentimos-nos melhores, mais bonitos, andamos com mais elegância, amamos mais os amigos, todo mundo foi perdoado, nosso coração é um barco para o qual até naufragar seria glorioso (ah, que naufrágios…).

Mais que isso, nesse castelo – como em qualquer castelo – não pode haver dois reis. Quem então cederá seu lugar, quem será sábio, quem se fará gueixa submissa ou servo feliz, para que o outro tome o lugar e se entronize e… reine?

A palavra “liberdade” teria de ser mais presente, porém é mais convidada a discretamente afastar-se e permitir que em seu lugar assuma o comando alguma subalterna: tolerância, resignação, doação, adaptação. Rondando o fosso do castelo, a vilã de todas…a culpa. Quem deixou sobre minha mesa o bilhete dizendo “se você ama alguém, deixe-o livre” sabia das coisas, portanto sabia também o desafio que me lançava.

No mundo das palavras há tantos artifícios quantas são as nossas contradições. Por isso, conviver é tramar, trançar, largar, pegar, perder. E nunca definitivamente entender o que – se fossemos um pouco sábios – deveríamos fazer. Farsa, tragédia grega, outras soneto perfeito: o amor, com as palavras, se disfarça em doces armadilhas ou lâminas.


*Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938) é uma escritora e tradutora brasileira. É também uma professora universitária aposentada e colunista da revista semanal Veja.

“A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada”. (Lya Luft)

“Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.” (Lya Luft)

Post Liberte_se_LêdaMello

                     LIBERTE (-SE)!

                Lêda Mello

Era o meu aniversário e, entre os presentes que recebi, havia um livro* da escritora americana Sue Bender. Um livro simples, não volumoso, mas que me trouxe, entre muitas outras, uma mensagem de vida que levo comigo para onde eu for. Na ocasião, escrevi essa mensagem em um cartão para que a pudesse reler tantas vezes quantas sentisse necessidade. Com o tempo, não mais precisei reler, porque havia decorado o que estava escrito. Mais do que decorado, eu havia colocado na minha vida aquelas regras de ouro. São regras básicas que funcionaram como um ponto de partida para a minha libertação interior. É uma experiência de muitos anos que quero compartilhar com você.

Estava escrito naquele cartão:
-
“Dê a si mesma a liberdade de ficar desapontada.”
- “Dê aos outros a liberdade de não se interessarem pelo que
você está fazendo.

- “Dê-lhes a liberdade de não a amarem.”
- “Dê-se a si mesma a liberdade para ser quem é em todas
as oitavas, não apenas nas notas mais altas – em toda a     escala de você mesma.”

Quantas vezes nós nos sentimos prisioneiros! Não há grades visíveis, mas elas estão ali, no nosso interior, supostamente intransponíveis, de forma a não sabermos como sair da prisão. Da mesma forma que as grades, na nossa mente existem Mandatos, que também não vemos, em razão de estarem no modo “automático”.  “Em Análise Transacional (AT), as mensagens parentais, chamadas Mandatos, são as responsáveis pela formação do Argumento ou Script de Vida de cada indivíduo. As condutas verbais ou não verbais carregam em seu bojo as condutas gravadas dentro de cada pessoa. Isso significa que cada Mandato gravado corresponde a uma ação em potencial pronta a ser disparada, direcionando o estilo de vida de cada pessoa.” (Dr. José Silveira). A boa notícia é que o que foi escrito pode ser reescrito de outra forma.

“Dê a si mesma a liberdade de ficar desapontada.” – A verdade é que não aceitamos ficar desapontados. Ora, a surpresa, o sucesso desagradável e a decepção fazem parte do processo da vida e quase sempre nos sentimos presos para processar essas experiências. Não obstante isto, surpresas, decepções e acontecimentos desagradáveis acontecerão ao longo da nossa vida e nada, a não ser nós mesmos, nos impede de manifestarmos o nosso desagrado. Assuma o seu desapontamento, resolva-o e aproveite a oportunidade para encontrar dentro de si mesmo quanto você contribuiu para a situação. São excelentes momentos para praticar o autoconhecimento. Esta prática atua como importante exercício de bem estar, ocasionando resoluções produtivas e conscientes acerca de seus variados problemas.

“Dê aos outros a liberdade de não se interessarem pelo que você está fazendo.” – Você há de convir que seja o que for que você fizer está no âmbito do seu interesse. Portanto, é importante para você e não, necessariamente, para os outros. Você é livre para fazer o que quiser, desde que assuma a respectiva responsabilidade. Da mesma forma, as outras pessoas, próximas ou não, são livres para não se interessarem pelo que você faz. Minha filha, quando tinha a idade de 5 anos, deu-me uma lição que muito me tem servido. Certa ocasião, reclamei de algo que ela fizera e, como resposta, com a sabedoria própria das crianças, escutei-a dizer-me, calmamente: “Mãe, cada qual, cada qual.” Ao longo da vida, tenho constatado a utilidade desse raciocínio para muitas situações, inclusive para me libertar da necessidade de receber atenção para tudo o que eu fizer.

“Dê-lhes a liberdade de não a amarem.” – No período da infância, uma das primeiras coisas que aprendemos é a encontrar segurança pessoal no que interpretamos por “ser amado”. No mundo mágico da criança, o amor tem ligação com o sentimento de aprovação, o que a leva a estabelecer valorações e validações de si mesma. Uma correção expressa de forma inadequada, por exemplo, vinda de uma figura parental, pode levar a criança a não se sentir amada. Seus conceitos “Sou bom” e “Não sou bom” estão intimamente ligados a sentir-se aprovada, o que, para ela, significa ser ou não ser amada.

Inserido neste contexto está o sentimento de rejeição. Não é ensinado à criança, por exemplo, que quando ela escuta um “não”, a negativa não é para ela, pessoalmente, mas para o que ela fez ou disse. À medida que os “nãos” sem explicações adequadas vão se sucedendo, o sentimento de inadequação vai aumentando e, a uma certa altura, a criança começa a conhecer o sentimento de rejeição.

Levamos para a vida adulta as experiências vividas na infância e é assim que, sem sabermos como, nos sentimos péssimos quando percebemos que não somos amados por alguém. Levando em conta que as pessoas não estão obrigadas a nos amar, liberte-as desse hipotético compromisso. O que você precisa é se amar muito e bem. Libertando o outro é você quem será livre. Se acontecer de se sentir rejeitado, lembre-se disto: “Se você quer me amar, legal!!! Se você quer me desvalorizar, o problema é seu. Aprendi que somente eu posso me desqualificar.” (Dr. Roberto Shinyashiki)

“Dê-se a si mesma a liberdade para ser quem é em todas as oitavas, não apenas nas notas mais altas – em toda a escala de você mesma.”  – Você é, como todos nós o somos, cheio de virtudes e defeitos, e não precisa ficar o tempo todo querendo criar uma situação ilusória para o que você é. Ser você mesmo é conhecer as suas notas altas e baixas, e cuidar para ser – para você mesmo e não para os outros – o melhor que você puder ser. A aprovação e a amizade reais e verdadeiras são encontradas naqueles que nos aceitam e nos amam como nós somos.

Permita-se ser livre. Liberte o que existe no seu universo. Quanto mais você libertar pessoas, conceitos e coisas, mais livre você será. Liberte-se!

Lêda Yara Motta Mello
Psicoterapeuta Holística
CRT- 41601
Arapiraca (AL) – Brasil
ledayara@terapeutaholistica.com.br
http://ledayara.terapiaholistica.net
* * SOU BEM MAIOR DO QUE ISSO (Sue Bender) – Ed. Sextante
Post_Jardim_RubemAlves

Jardim

Rubem Alves

Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos “conhecimento de palavras e ignorância da Palavra”. A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria.”

Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma… Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas… São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Eram posse minha. Mas a terra não me pertencia.

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.

Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.

Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu – constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada… Um dia você terá saudades… Vocês, então, saberão…” É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constroem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas… O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante… E como é bom!

Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido… Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: “Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma…” Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos…

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera… Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios… E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas… Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio… E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:

“No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta.”

Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: “O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso.” (O retorno eterno, p 65).

fonte: www.rubemalves.com.br/jardim.htm; Foto da rosa: Michèle Christine (Pça. da Liberdade, Belo Horizonte, MG

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