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EUREKA

Martha Medeiros

Cada semana, uma novidade. A última foi que pizza previne câncer do esôfago. Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere… Diante dessa profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos. Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.

Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0 km. Ler um bom livro faz eu me sentir nova em folha. Viajar me deixa tensa antes de embarcar, mas depois eu rejuvenesço uns 5 anos. Voos aéreos não me incham as pernas, me incham o cérebro, volto cheia de ideias.

Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago. Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano. E telejornais os médicos deveriam proibir – como doem!

Essa história de que sexo faz bem pra pele acho que é conversa, mas mal tenho certeza de que não faz, então, pode-se abusar. Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem: você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.

Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde. E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda. Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou mussarela que previnam.

Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser excepcionalmente bom, uau! Cinema é melhor pra saúde do que pipoca. Conversa é melhor do que piada. Beijar é melhor do que fumar. Exercício é melhor do que cirurgia. Humor é melhor do que rancor. Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida.

Tomo pouca água, bebo mais de um cálice de vinho por dia, faz dois meses que não piso na academia, mas tenho dormido bem, trabalhado bastante, encontrado meus amigos, ido ao cinema e confiado que tudo isso pode me levar a uma idade avançada. Sonhar é melhor do que nada.
Martha Medeiros
In: Montanha Russa
Editora L&PM, p. 189
martha medeiros_maior risco da vida
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ELOGIO DA CHUVA

Carlos Drummond de Andrade

O dia da chuva é propício à filosofia, ao amor, à rasgação de papéis, à curtição de licor, à preguiça física e mental, a escrever cartas, a ouvir músicas, a telefonar para amigos nos Estados ou no exterior, a cochilar, a beber uma xícara de chocolate bem quente, a jogar cartas ou fazer paciência, a fazer pequenos consertos no banheiro, a lembrar casos de viagem, a não fazer nada.

É extraordinária a relação de coisas que o dia de chuva torna propícias, menos, é claro, sair de casa. O dia de chuva é exatamente o dia oferecido de graça pela natureza para ficarmos em casa, para esquecermos a rua, os negócios as obrigações. Em vão o calendário  o assinala com impressão em negro, lembrando que se trata de dia útil. A misericórdia do tempo imprime-o vermelho, como os domingos, feriados e dias santos.

O dia de chuva é propriamente um dia santo, em que devemos guardar a paz interior e a paz com relação aos outros, fugindo de qualquer tentação de agir, influir, concluir. O silêncio ocupa nele um espaço especial, feito de doçura e tranquilidade. Por isso mesmo não se deve escutar música de sonoridades fortes, sinfonias de largo fôlego heroico ou monumental. A música nesse dia há de ser de câmara, e pede-se aos familiares que não falem alto. Também não precisam sussurrar. Não há cochichos nem segredos no dia de chuva. Há a atmosfera de quietude que banha todas as coisas, tornando-as mais simples, mais delicadas, sobretudo mais comunicantes com a gente.

A chuva lá fora leva-nos a descobrir a discreta excelência desta mesa, em que acostumáramos a botar tanta coisa que nem víamos mais ou seu tempo antigo e prestimoso. Vamos desembaraçá-lo de livros, lápis, pesos de papel, espátulas, e alisar a madeira camarada, fiel durante tamanha fatia da vida.

É olhar para as paredes também. É hora de redescobrir que os quadros que um dia instalamos, orgulhosos de exibir a tela ou a gravura que encantavam o crítico Florêncio quando ele nos visitou. Não só o crítico, as visitas em geral ficaram encantadas. E nós, com o tempo, nem reparávamos nelas. A ingratidão da pressa e do costume tornou praticamente invisíveis as obras de arte, poucas mas boas, que conseguimos reunir ao longo da vida. E a chuva, essa benfeitora, aponta-as com o dedo molhado, dizendo: “Olha.”

Olhamos e nos sentimos outra vez donos de novo, de primeiro dia, felizes sem arrogância. Tão bom, ressentir a presença de cada objeto que nos acompanha dia após dia e não reclama nada, salvo um pouco de limpeza ou verniz. Um arsenal imenso de coisas que vive à nossa disposição tem a sua utilidade, a sua beleza comprovada, porque a chuva, fustigando as ruas, nos conduz a essa doce contemplação dos objetos caseiros, em que até uma caçarola: serão menos flores do que as de jardim, ou fazem papel de representantes delas?

Bem, o capítulo da leitura de livros tem importância particular no dia de chuva. Todos possuímos um bocado de volumes condenados a jamais serem abertos. Jamais, não. Se a chuva nos deixa em casa, é para eles, os intocados, os virgens, que a mão se dirige. Aí está esse poeta espanhol do século XV, Rodrigo de Cota, comprado em edição de bolso, nunca lida. Abre-se ao acaso, e é o longo diálogo entre o amor e o velho, em que  este, vencido por aquele, exclama: “Siento raiva matadora,/plazer ileno de cuydado;/siento fuego muy crescido, siento mal y no lo veo;/sin rotura esto herido:/no quiero ver partido,/ni apartado de deseo”.
Leituras de dia de chuva: um gosto diferente daquele que tem a leitura em dias comuns.

E assim vamos navegando dia afora, sem preocupação de relógio, a ponto de parecer que o tempo acabou como categoria obsessiva de toda a vida. Não há pressa, porque a chuva elimina as providências que devemos tomar. A agenda, com seus deveres irretratáveis, foi derretida sem lástima, direi até com prazer. Porque há prazer na dispensa de uma obrigação, ou no seu adiamento: fraqueza (ou defesa?) da mente humana. Até os maiores trabalhadores, os que têm compromisso moral com a pátria e a consciência, experimentam secreta delícia em frustrá-lo por um dia, intervalo destinado à ociosidade angélica.

Acontecimento importante, que ocorre no recolhimento domiciliar da chuva, é a demissão do sol, que de bom grado assinamos. Esquecemos seus benefícios e esplendores, passamos muito bem sem ele. Se voltasse no meio da tarde, seria mal recebido. A chuva ficou sendo para nós uma sóror franciscana, de amada conveniência.

Mas tudo isto, agora me envergonha dizê-lo, são prazeres de classe média relativamente folgada, que se permite faltar ao serviço sem medo de desconto ou cara feia do chefe. Desfrutá-los não é para qualquer mortal. Até a chuva é discriminatória e parcial, injusta para muitos, privilegiada
para uns poucos. Perdoem esta louvação médio-classista da chuva de quinta-feira passada.

Carlos Drummond de Andrade
In: Prosa Seleta Carlos Drummond de Andrade
[Moça Deitada na Grama]
Editora Nova Aguilar, 2003, em um volume,
p. 1138 – 1140
Drummond_Desejos

Cora Coralina_Poema de Natal

O BOUQUET DE CRAVOS & CONCHAVOS deseja à todos os seus leitores e seguidores um

Natal de Paz e um

Ano Novo de muitas alegrias.

Feliz Natal 08

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MINHA ALMA ESTÁ EM BRISA

Arialdo Oliveira

 

 

Contei meus anos e descobri que tenho menos tempo para viver a partir daqui, do que o que eu vivi até agora.

Eu me sinto como aquela criança que ganhou um pacote de *doces*; o primeiro comeu com prazer, mas quando percebeu que havia poucos, começou a saboreá-los profundamente.

Já não tenho tempo para reuniões intermináveis em que são discutidos estatutos, regras, procedimentos e regulamentos internos, sabendo que nada será alcançado.

Não tenho mais tempo para apoiar pessoas absurdas que, apesar da idade cronológica, não cresceram.

Meu tempo é muito curto para discutir títulos. Eu quero a essência, minha alma está com pressa… Sem muitos *doces* no pacote…

Quero viver ao lado de pessoas humanas, muito humanas. *Que sabem rir dos seus erros*. Que não ficam inchadas com seus triunfos. Que não se consideram eleitos antes do tempo. Que não  ficam longe de suas responsabilidades. Que defendem a dignidade humana. E querem andar do lado da verdade e da honestidade.

O essencial é o que faz a vida valer a pena.

*Quero cercar-me de pessoas que sabem tocar os corações das pessoas*… *Pessoas a quem os golpes da vida ensinaram a crescer com toques suaves na alma*.

Sim… Estou com pressa… Estou com pressa para viver com a intensidade que só a maturidade pode dar.
Eu pretendo não desperdiçar nenhum dos *doces* que eu tenha ou ganhe… Tenho certeza de que eles serão mais requintados do que os que comi até agora.
 
*Meu objetivo é chegar ao fim* satisfeito e em paz com meus entes queridos e com a minha consciência.
 
Nós temos duas vidas e a segunda começa *quando você percebe que você só tem uma*…
 

 

martha medeiros_maior risco da vida
 

 

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Aprendimentos

Manoel de Barros

O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é o caminho que o homem percorre para se conhecer.

Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim falou que só sabia que não sabia de nada. Não tinha as certezas científicas.

Mas que aprendera coisas di-menor com a natureza.

Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem alardes.

Disse que fosse ele caracol vegetado sobre pedras, ele iria gostar.

Iria certamente aprender o idioma que as rãs falam com as águas e ia conversar com as rãs.

E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos do que nas paisagens.

Seu rosto tinha um lado de ave.

Por isso ele podia conhecer todos os pássaros do mundo pelo coração de seus cantos.

Estudara nos livros demais.

Porém aprendia melhor no ver, no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.

Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!

Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles – esse pessoal.

Eles falavam nas aulas:

Quem se aproxima das origens se renova.

Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que achava para renovar sua poesia.

Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala.

Sócrates falava que as expressões mais eróticas são donzelas.

E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela.

O que mais eu sei sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

– Manoel de Barros, do livro “Memórias inventadas: a segunda infância”.

Post_Cecília Meireles__A arte de ser feliz

A arte de ser feliz

Cecília Meireles

Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.

E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

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