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Archive for 4 de junho de 2010

Post elefante definitivo

O EFEFANTE CONTEMPORÂNEO

Affonso Romano de Sant’Anna*

Existe uma lenda sobre o elefante e uns  cegos, que se reuniram em torno dele tentando defini-lo.   Eu  a ouvi   primeiro de meu pai e você talvez  a tenha   ouvido   num sermão, numa sala  de aula ou, como é comum hoje em dia, na internet. Em caso de dúvidas, vá ao Google.

Lá você vai ver que nem se sabe mais  qual a verdadeira origem da estória. Uns dizem que é árabe, outros afirmam nos veio  da India  e há quem garanta que veio de Portugal. E embora a essência da lenda permaneça, há umas variantes. Uns dizem que os   cegos   eram seis pessoas comuns, outros dizem que eram sete sábios em torno de um mistério.

O fato é que, de repente, surgem seis ou sete cegos  e um elefante. E eles são desafiados a definirem que estranho animal era aquele. Como eles eram cegos, começaram a apalpar o imenso enigma.

Um apalpou a barriga e disse que o animal parecia um muro, uma parede.

Outro tocou as presas de marfim  e concluiu que ele era uma lança ou espada.

O terceiro pos as mãos na tromba e saiu afirmando que era uma imensa cobra.

O próximo abraçou  as pernas volumosas do elefante e afirmou que era uma árvore.

A seguir o quinto tocou as orelhas do bicho e disse que aquilo era um enorme leque, uma cortina se mexendo.

O sexto agarrado à cauda do mistério saiu alardeando que aquilo era simplesmente uma corda.

Mas há uma  versão que inserindo um sétimo sábio, diz que este chegou conduzido por uma criança, que desenhou no chão um elefante. A partir daí os cegos tiveram o contorno do imaginado animal. Como em outras lendas, tipo “A roupa do imperador “, a que se refere Andersen, a criança é que leva os demais a verem a realidade.  Segundo uma outra versão ,no entanto, como os sábios não chegavam a uma conclusão começaram a brigar e um deles levou uma pancada na cabeça, o que lhe fez recuperar a visão. Tendo visto o que era realmente um elefante, tentou desesperadamente explicar aos demais o que tinha visto. Não adiantou, os demais discordavam dele e diziam que ele estava vendo coisas.

Além dessa versão muito didática sobre o mundo ontem e hoje, no século XIX o poeta   John Glodfrey Saxe preferia a estória com apenas seis cegos que não se entendiam , e  concluía   dizendo que a moral da estória é que muitas pessoas discutem sobre elefantes que nunca viram.

– Bem, e daí, perguntará um meu  leitor lá em Pequiri?

– Daí que essa lenda tem sido usada até pelos setores de recursos humanos das empresas para estimular a cooperação e o trabalho. Mas essa alegoria voltou à minha memória quando andei lendo mais umas interpretações fantasiosas de algumas obras chamadas “contemporâneas”, obras sobre as quais as pessoas dizem os mais sofisticados disparates. Daí, pensei em reescrever a lenda dizendo: Era uma vez seis ou sete pessoas cegas, que uns dizem que eram sábios, outros dizem que eram pessoas comuns, que foram convocadas para tocarem  um elefante e explicarem o que seria aquela misteriosa figura. Cada um deles tocou uma parte do enigma. O resultado  dessas definições foi uma estranhíssima criatura que nada tinha ver com o elefante.

No caso da lenda original, o elefante concreto existia.

No caso do elefante “contemporâneo”  é mais fantástico. Ele sequer existe, é conceitual. As interpretações são variações em torno do ausente. Estava certo o poeta americano: muitas pessoas  discutem sobre elefantes inexistentes.

(*)Estado de Minas/ Correio Braziliense-18.04.2010. Affonso Romano de Sant’Anna, mineiro, nasce em Belo Horizonte no dia 27 de março de 1937.

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