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Archive for setembro \29\-03:00 2010

Post encontre a primavera

Encontre a primavera

Autor: Américo Pita(*)

Procure a Primavera
em qualquer canto:
nos quintais, nos canteiros, nos recantos
dos jardins, onde a florada prolifera.
Procure nos caminhos.
procure com carinho…
e encontre a Primavera.

E quando sentir, pelas manhãs,
um ar primaveril, risonho e lindo,
nos pés de flamboyans,
nos pés de tamarindos
e perceber que o fascínio
da sua alma se apodera,
não pare, siga em frente,
seja mais paciente…
e encontre a Primavera.

E quando,

na aleluia de luz do seu jardim,
ouvir um som, como um clarim,
é a passarada, que no cantar se esmera.
E quando, enfim,
sentir o perfume de um jasmim
e choverem pétalas perfumosas
e miríades de cores luminosas,
como se Deus descesse em seu jardim…
e quando sentir que a vida
não é apenas fantasia, nem quimera…
leia as mensagens das rosas nos canteiros…
e na fronde angelical dos jasmineiros
encontre a primavera.

E antes que a solidão, o desencanto
e a nostalgia lhe prostrarem em pranto
como trovões próximos
que sua alma desespera,

jogando-o nos abrolhos,

deixando nódoas ardentes nos seus olhos
e fragmentando a moldura da alma…
prossiga, tenha calma…
e encontre a Primavera.

E na graça deste quadro reluzente,
jogue fora a tristeza, siga em frente,
e encontre a primavera.

Abra sua janela

e deixe um raio de sol beijar sua existência
e capture o perfume das rosas,
sem nomes e sem rótulos,
para acariciarem, com toda sua essência,
o mundo inteiro, a atmosfera, a estratosfera…
Encha de júbilo o seu coração,
segure o mundo na palma da mão
e eternize a Primavera.

(*) Manoel Américo de Carvalho Pita – Escritor, poeta e pesquisador da cultura nordestina, santanense lá do pé da serra grande, (Serra do Gado), onde os acordes do seu violão ainda ecoam.

Nota do blog (Michèle): Texto gentilmente repassado pela poeta Vera Mussi. A rosa da foto também, gentilmente, foi colhida no Bouquet de Cravos & Conchavos pelo autor, clicada por mim lá na Praça da Liberdade, Belo Horizonte das Minas Gerais num instante que a natureza já proclamava a chegada da primavera.

Primavera florida

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O texto abaixo foi escolhido pelo Bouquet de Cravos & Conchavos, em vista do “tempo do agora”, quando todos procuramos e necessitamos  construir ou reconstruir a vida baseados na ‘pluralidade’ e não na individualidade: – dos princípios humanos, – da preocupação com o tempo da casa-Terra, – das atitudes solidárias, – do abraço, do bom humor, do tempo partilhar, – das escolhas conscientes e refletidas no, agora, das eleições.

“…Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer”.

(Michèle – setembro/2010)

Post para construir a vida

Para construir a vida

Paulo Gabriel*

Tempo este,
em que 800 milhões de pessoas passam fome
e há no Zaire lágrimas no rosto de um milhão
de refugiados.
Desesperada,
sem pátria e sem destino,
a mão africana suplica por um prato de comida
que não chega.
Tempo este,
em que a bota neoliberal pisa no mundo
e há uma cerca invisível dividindo a terra.
Programada,
a morte bate à porta na América Latina.
Exclusão é a palavra!
Tempo este,
de balas perdidas ferindo a inocência
dos corpos no abraço —
Eldorado dos Carajás, Vigário Geral,
Anapu e Boa Vista —
o sangue derramado dói na consciência e clama!
Tempo este,
em que os olhos de um menino
abandonado e preso
denunciam a crueldade humana e incomodam.
Que perguntas ele faz com sua mirada?
Mas teimosa é a vida,
e Deus é a vida!
Frágil,
ele vem ao nosso encontro
e assume esta história feita de pranto e de sonho.
Com os olhos no horizonte,
realistas, exigimos o impossível!
Na esperança caminhamos.
Utopia.
Isaías anunciou uma era de paz e de ternura,
a vida explodindo pura no manancial da alegria.
Das lanças nasceriam enxadas
e arados das espadas.
Agora, porém,
é o momento de fabricar espadas
com as lâminas de arado que ainda restam
e desatar a vida
no útero do povo que renasce!

*Paulo Gabriel nasceu na Espanha em 1950. Em 1972 veio para o Brasil e após três anos conseguiu a naturalização brasileira. Religioso agostiniano, em 1975 ordenou-se sacerdote no Rio de Janeiro. Viveu em Belo Horizonte, fez jornalismo na PUC de Minas Gerais e atualmente reside em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Dentre os poetas que influenciaram sua poesia estão Juan Ramón Jiménez, Pablo Neruda, Ernesto Cardenal, Ferreira Gullar e Manoel de Barros.

(do livro “Em desnuda oração” Salmos da rua)

Paulo Gabriel

Apresentações:

Dorinha Soares: “Paulo Gabriel nasceu na Espanha, mas vive no Brasil desde 1973. Aqui se tornou cantor popular de histórias simples, construtor de fantasias, sonhador de um mundo novo, pedreiro de utopias. No Rio de Janeiro aprendeu que a vida é alegria, natureza, festa. O que importa é viver o presente com intensidade. Tudo é passagem! Foi em Minas onde descobriu o silêncio das coisas, o olhar emocionado e os segredos do coração humano. Há em Minas vestígios de eternidade. No Araguaia, trabalhando com Dom Pedro Casaldáliga, viu que a história é luta, sufoco, solidariedade e teimosia.”

D. Pedro Casaldáliga: “Paulo Gabriel é poeta, de fôlego maior, no meu entender amigo, e por isso mesmo, perdoavelmente suspeito. Literariamente, Paulo Gabriel é antes de mais nada, um lírico, sensivelmente humano, lavrador de intimidades. Literariamente é uma despojada retórica, um olhar descritivo, quase naturista por sua vez. Cinematograficamente seria neorrealista. Paulo Gabriel é religioso. Seus poemas são também religiosos. Dessa religião de Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Filho do Homem, que se faz vida cotidiana, opção pelo Reino, parcialidade evangélica pelos pobres, serviço e riscos históricos.”…

O livro ‘Em desnuda oração’ – salmos da rua:

A obra traz uma coletânea de textos poéticos que exprimem a alma lírica do autor, sua admiração diante do mundo, sua relação com Deus, suas dores, alegrias e frustrações à vista dos problemas sociais e cotidianos. Revelam ainda a solidão que se apodera do ser humano em determinadas situações e como a natureza é capaz de despertar as emoções.

Com um estilo comum ao dos místicos cristãos, os poemas apresentam características próximas dos salmos, pois falam do amor cósmico, dos desejos da carne, da utopia de uma vida mais justa e levam à reflexão, pela beleza e profundidade de seus versos. A obra tem ainda apreciação de Dom Pedro Casaldáliga (bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia – MT) e prefácio de Leonardo Boff, duas personalidades importantes, que recomendam sua leitura.

“Obra recolhe e expressa, ora em um clamor, ora num tenso silêncio, todas as variantes vitais de um coração humano.”
Pedro Casaldáliga

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Post Drummond_reverência

Reverência ao destino

Carlos Drummond de Andrade*

Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem pra fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer “oi” ou “como vai?”
Difícil é dizer “adeus”, principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas…

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas.

Fácil é ditar regras.
Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

image *Carlos Drummond de Andrade nasceu em Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902 na cidade de Itabira, cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra. Faleceu no Rio de Janeiro em 18 de agosto de 1987, foi poeta, contista e cronista brasileiro. Sua escola foi a tradição e o modernismo.

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Post Tempo de delicadeza

Tempo de delicadeza

Affonso Romano de Sant’Anna*

Sei que as pessoas estão pulando na jugular uma das outras.

Sei que viver está cada vez mais dificultoso.

Mas talvez por isso mesmo ou, talvez, devido a esse maio azulzinho, a esse outono fora e dentro de mim, o fato é que o tema da delicadeza começou a se infiltrar, digamos, delicadamente nesta crônica, varando os tiroteios, os seqüestros, as palavras ásperas e os gestos grosseiros que ocorrem nas esquinas da televisão e do cinema com a vida.

Talvez devesse lançar um manifesto pela delicadeza. Drummond dizia: “Sejamos pornográficos, docemente pornográficos”. Parece que aceitaram exageradamente seu convite, e a coisa acabou em “grosseiramente pornográficos”. Por isso, é necessário reverter poeticamente a situação e com Vinícius de Morais ou Rubem Braga dizer em tom de elegia ipanemense:

Meus amigos, meus irmãos, sejamos delicados, urgentemente delicados.

Com a delicadeza de São Francisco, se pudermos.

Com a delicadeza rija de Gandhi, se quisermos.

Já a delicadeza guerrilheira de Guevara era, convenhamos, discutível. Mas mesmo ele, que andou fuzilando pessoas por aí, também andou dizendo: “Endurecer, sem jamais perder a ternura”.

Essa é a contradição do ser humano. Vejam o nosso sedutor e exemplar Vinícius, que há 20 anos nos deixou, delicadamente.

Era um profissional da delicadeza. Naquela sua pungente “Elegia ao primeiro amigo” nos dizia:

Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente.

E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha alma

Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre

um corpo de adúltera.

Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento.

Se me entediam, abandono-as delicadamente, despreendendo-me delas com uma doçura de água.

Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim

Deprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível

Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher

Mas com singular delicadeza. Não sou bom

Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado

Porque dentro de mim mora um ser feroz e fraticida

Como um lobo.

Está aí: porque somos ferozes precisamos ser delicados. Os que não puderem ser puramente delicados, que o sejam ferozmente delicados.

Houve um tempo em que se era delicado. E Rimbaud, que aos 17 anos já tinha feito sua obra poética, é quem disse um dia: “Por delicadeza, eu perdi minha vida.”

Intrigante isso.

Há pessoas que perdem lugar na fila, por delicadeza. Outras, até o emprego. Há as que perdem o amor por amorosa delicadeza. Sim, há casos de pessoas que até perderam a vida, por pura delicadeza. Não é certamente o caso de Rimbaud, que se meteu em crimes e contrabandos na África. O que ele perdeu foi a poesia. E isso é igualmente grave.

Confesso que buscando programas de televisão para escapar da opressão cotidiana, volta e meia acabo dando em filmes ingleses do século passado. Mais que as verdes paisagens, que o elegante guarda-roupa, fico ali é escutando palavras educadíssimas e gestos elegantemente nobres. Não é que entre as personagens não haja as pérfidas, as perversas. Mas os ingleses têm uma maneira tão suave, tão fina de serem cruéis, que parece um privilégio sofrer nas mãos deles.

Tudo é questão de estilo.

Aquele detestável Bukovski, sendo abominável, no entanto, num poema delicado dizia que gostava dos gatos, porque os gatos tinham estilo. É isso. É necessário, com certa presteza, recuperar o estilo felino da delicadeza.

A delicadeza não é só uma categoria ética. Alguém deveria lançar um manifesto apregoando que a delicadeza é uma categoria estética.

Ah, quem nos dera a delicadeza pueril de algumas árias de Mozart. A delicadeza luminosa dos quadros dos pintores flamengos, de um Vermeer, por exemplo. A delicadeza repousante das garrafas nas naturezas mortas de Morandi. Na verdade, carecemos da delicadeza dos adágios.

Vivemos numa época em que nos filmes americanos os amantes se amam violentamente, e em vez de sussurrarem “I love you” arremetem um virótico “Fuck you”.

Sei que alguém vai dizer que com delicadeza não se tira um MST – com sua foice e fúria – dos prédios ocupados. Mas quem poderá negar que o poder tem sido igualmente indelicado com os pobres deste país há 500 anos?

Penso nos grandes delicados da história. Deveriam começar a fazer filmes, encenar peças sobre os memoráveis delicados. Vejam o Marechal Rondon. Militar e, no entanto, como se fora um místico oriental, cunhou aquela expressão que pautou seu contato com os índios brasileiros: “Morrer se preciso for, matar nunca”.

A historiadora Denise Bernuzzi de Sant’Anna anda fazendo entre nós o elogio da lentidão, denunciando a ferocidade da cultura da velocidade. É bom pensar nisso. Pela pressa de viver as pessoas estão esquecendo de viver. Estão todos apressadíssimos indo a lugar nenhum.

Curioso. A delicadeza tem a ver com a lentidão. A violência tem a ver com a velocidade. E outro dia topei com um livro, A descoberta da lentidão, no qual Sten Nadolny faz a biografia do navegador John Franklin, que vivia pesquisando o Pólo Norte. Era lento em aprender as coisas na escola, mas quando aprendia algo o fazia com mais profundidade que os demais.

Sei que vão dizer: “A burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados.”

– E eu não sei?

Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados.

Crônica extraída do Livro Tempo de Delicadeza.

SANTA’ANNA, Affonso Romano de. Tempo de Delicadeza – Porto Alegre: L&PM, 2007.

Delicadeza

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