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Archive for outubro \30\UTC 2010

Post Pátria Minha

Pátria Minha

Vinicius de Moraes*

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.
Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!
Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu…
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda…
Não tardo!
Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.
Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão…
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes.”
Texto extraído do livro “Vinicius de Moraes – Poesia Completa e Prosa”, Editora Nova Aguilar – Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.

*Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes, ou Vinicius de Moraes, (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913; Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980) foi um diplomata, jornalista, poeta e compositor brasileiro.

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Post as duas canções do homem

As Duas Canções do Homem
e os sons secretos da cítara indiana

Rubem Alves

Bom lembrar, a quem não sabe, que a cítara é composta
de duas camadas de cordas superpostas, uma sobre a
outra, muito próximas, sem nunca se tocarem.

A camada de cima é sensibilizada pelo músico, e a de
baixo não pode nunca ser tocada pelos dedos.

Quem pouco entende dos segredos sonoros pode
perguntar-se por que razão um instrumento musical tem
cordas que não são tocadas.

A beleza desse mistério está justamente na harmonia
que enlaça as duas camadas.

Os dedos não tocam a de baixo para que suas cordas
possam vibrar pela magia de uma coisa muito mais
sutil que os dedos.

Tangidas pelos sons que brotam das primeiras, elas
reverberam e fazem nascer uma outra música, diversa
daquela que o artista produziu.

Eis o segredo.

Eis a sensibilidade.

Olhemos agora para nós.

Quem sabe sejamos cítaras humanas, que vivem dentro
de um encanto chamado vida, provocado pelo carinho
criador de Deus;

Lá dentro, no fundo de nossa essência, estão as
segundas cordas de uma única verdade, que os dedos
nunca tocam, mas que fazem ouvir uma outra voz, a
vibrar pelos escaninhos do silêncio…

Vem de lá uma canção imortal, jamais tocada, mas
que, se ouvida, pode dizer muito de nós.

Talvez seja esta a melodia diferente que os bons
médiuns ouvem.

Aqueles que lêem com amor o não-dito das palavras
humanas, separando a mentira da verdade, o joio do
trigo, e escolhendo o bem.

Talvez seja, essa música oculta, a melhor definição
de amizade.

Afinal, o que um amigo faz senão educar-se para
escutar nosso silêncio, que às vezes busca um abraço,
um momento de atenção para aplacar sua melancolia?

Um amigo é também algo mais.
É aquele que faz do seu sossego um recanto confiável,
onde o outro pode guardar seus segredos e não ter
medo de perdê-los.

Um amigo é aquele onde nossa segunda pauta encontra
eco, porque sabe que no âmbito da amizade a solidão é
um convite ao recolhimento,para que sejamos ouvidos,
para que possamos reverberar.

Nos braços de um amigo, nossa solidão se dilui no
suave aroma da partilha.

Você, a quem muitos consideram verdadeiro irmão,
pode treinar os ouvidos do sentimento para escutar
uma nova melodia.

Preste, porém, menos atenção no que as pessoas
irão tocar e mais nos sons daquelas cordas que
nunca serão tangidas.

Aproveite, também para apreciar a beleza da música
que brota de todo lugar.

Aí escutará a segunda canção de Deus, convidando-o
a que habite uma realidade nova:

a de ser, finalmente, um bom e melhor amigo, que com
muito amor, aprendeu a chamar os outros
para fora da solidão.

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Post Pol e Cida

Atribui-se a origem da palavra política ao termo grego “pólis” que significa cidade. Quando pensamos em política, logo nos vem à mente a idéia de decisões que afetam muitos. Uma política comercial de vender só a vista ou só a prazo é um exemplo de como uma decisão pode afetar um grupo de clientes ou todos os clientes de uma empresa.

Quando pensamos em política no sentido público, logo associamos com decisões que viram leis e que podem afetar uma cidade, um estado, uma nação ou todo o planeta. Veja o impacto da decisão que gerou o incidente conhecido como 11 de setembro nos EUA.

Tomás de Aquino, o filósofo, dizia que política é a arte de governar os homens e administrar as coisas, visando o bem comum, de acordo com as normas da reta razão.

A qualidade das decisões políticas de um governo pode ampliar ou diminuir sua habilidade de influenciar as decisões dos governados. Em uma democracia, isto pode redundar na renovação de um mandato ou até na remoção de um governante como foi o caso do impedimento do ex-presidente Collor.

Devido à desinformação ou desilusão relacionadas às suas expectativas, muitas pessoas dizem categoricamente que não gostam de política. Essas pessoas não têm idéia do prejuízo que estão gerando para si mesmas e para o grupo social. Votando em branco, ou anulando o voto, por exemplo, diminuem o número de votos válidos e facilitam a vida de quem não gostariam de eleger. Seria importante que todos compreendessem que seu desinteresse equivale a renunciar à cidadania.

Platão, o filósofo grego, discípulo de Sócrates dizia: — Não há nada de errado com aqueles que não gostam de política. Simplesmente serão governados por aqueles que gostam.

Precisamos mudar o nosso conceito de política e o primeiro passo é separar a palavra política, de politiqueiro e da politicagem. Na Grécia antiga, em cidades como Atenas, os cidadãos livres participavam da assembléia para discutir os problemas comuns a todos e tomavam decisões com o objetivo de solucioná-los.

Baseado nesta experiência, Aristóteles, um dos maiores sábios gregos, dizia que política é a ciência e a arte do bem comum. Para ele a cidade deveria ser governada em proveito de todos, e não apenas em proveito dos governantes ou de alguns grupos.

Muitas vezes, não percebemos, mas algumas decisões políticas afetam a vida de todos. Os gastos públicos, por exemplo, diminuem as verbas disponíveis para investimentos públicos em educação, estradas, saúde, segurança, financiamento de novas empresas, etc. Estes gastos aumentam a dívida pública a qual precisa ser “rolada”, ou seja, contrata-se uma nova dívida, para pagar a velha. Isto mantém os juros elevados e atrai especuladores estrangeiros. O aumento da oferta de dólares fortalece o real e derruba o cambio. O cambio barato, deixa o produto importado mais competitivo e fica difícil exportar. A produção cai e as fábricas dispensam parte da sua mão de obra, passam a produzir no exterior ou fecham. Criamos empregos lá fora e desemprego no Brasil.

É por razões como estas que nenhum cidadão sensato pode ignorar a política. Cada pessoa deve procurar compreender e participar da política. Para atuar politicamente e assim influenciar o poder, cada cidadão e cidadã deve se conscientizar, informar-se, ouvir, ler, falar, debater, estudar e procurar formar sua opinião sobre os diferentes problemas.

Com consciência política estaremos preparados para votar, fazer sugestões, acompanhar os trabalhos dos nossos parlamentares, exigir e reagir quando for necessário.

Toda eleição é um contrato. O candidato promete, a gente vota e espera que ele cumpra o que prometeu. Se ele mentiu ou foi incompetente, temos o direito de não renovar o contrato ou afastá-lo antes que seja tarde. A auto-instrução pela leitura e pelo debate é o melhor remédio para que o Brasil desperte.

Paulo Henrique Wedderhoff
Empresário
Administrador de Empresas
Professor de Fundamentos da Administração-Curitiba/PR

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Post texto Rui Barbosa
título de A Pátria

Rui Barbosa

Ano de 1903

O sentimento que divide, inimiza, retalia, detrai, amaldiçoa, persegue, não será jamais o da pátria. A Pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício.

É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas.

Multiplicai a célula, e tendes o organismo.Multiplicai a família, e tereis a pátria. Sempre o mesmo plasma, a mesma substância nervosa, a mesma circulação sangüínea.

Os homens não inventaram, antes adulteraram a fraternidade, de que Cristo lhes dera a fórmula sublime, ensinando-os a se amarem uns aos outros: “Diliges proximum turum sicut ipsum”.

Dilatai a fraternidade cristã, e chegareis das afeições individuais às solidariedades coletivas, da família à nação, da nação à humanidade. Objetar-me-eis com a guerra!

Eu vos respondo com o arbitramento. O porvir é assaz vasto para comportar esta grande esperança. Ainda entre as nações, independentes, soberanas, o dever dos deveres está em respeitar nas outras os direitos da massa.

Aplicai-o agora dentro das raias desta: é o mesmo resultado; benqueiramo-nos uns aos outros, como nos queremos a nós mesmos.

Se o casal do nosso vizinho cresce, enrica e pompeia, não nos amofine a ventura, de que não compartimos. Bendigamos, antes, na rapidez de sua medrança, no lustre da sua opulência, o avulsar da riqueza nacional, que se não pode compor da miséria de todos.

Por mais que os sucessos nos elevem, nos comícios, no foro, no parlamento, na administração, aprendamos a considerar no poder um instrumento de defesa comum, a agradecer nas oposições as válvulas essenciais da segurança da segurança da ordem, a sentir no conflito dos antagonismos descobertos a melhor garantia da nossa moralidade.

Não chamemos jamais de inimigos da pátria aos nossos contendores. Não averbemos jamais de traidores à pátria os nossos adversários mais irredutíveis.

A pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à idéia, à palavra, à associação. A pátria não é um sistema, nem é uma seita, nem um monopólio, nenhuma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade.

Os que a servem são os que não invejam, os que não inflamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não desalentam, os que não emudecem, os que não se acobardam, mas resistem, mas ensinam, mas esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração, o entusiasmo.

Porque todos os sentimentos grandes são benignos e residem originariamente no amor. No próprio patriotismo armado o mais difícil da vocação, e a sua dignidade não está no matar, mas morrer. A guerra, legitimamente, não pode ser o extermínio, nem a ambição: é, simplesmente, a defesa. Além desses limites, seria um flagelo bárbaro, que o patriotismo repudia…

NOTA EXPLICATIVA: A ilustração deste texto foi adaptada de uma pintura de Eduardo Sá que ilustra a participação de José Bonifácio na idealização da Bandeira Nacional e ao fundo montanhas das Minas Gerais:

A bandeira brasileira concebida por Debret e idealizada por Bonifácio, portanto, teve o campo verde com um losango amarelo inscrito, observando a recomendação de D. Pedro I no que dizia respeito às cores. Sobre o losango, um escudo de armas e uma coroa, agora representando a Coroa do Império do Brasil. Inscrita no escudo, em campo verde, a esfera armilar de ouro, que assim reaparecia na bandeira (sempre utilizada desde o tempo em que o território era um principado), atravessada pela cruz da Ordem de Cristo (sempre usada e popular até à época das bandeiras, como). A circundá-la, dezenove estrelas de prata sobre orla azul representando as províncias imperiais. Ladeavam o escudo um ramo de café e um de tabaco, símbolos das riquezas agrícolas do País naquele tempo.

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