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Archive for fevereiro \19\-03:00 2011

Post Lya Luft

Subir pelo lado que desce

Lya Luft*

Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce.

Ouvindo esta frase, imaginei qualquer pessoa nessa acrobacia que as crianças fazem ou tentam fazer: escalar aqueles degraus que nos puxam inexoravelmente para baixo. Perigo, loucura, inocência, ou uma boa metáfora do que fazemos diariamente?

Poucas vezes me deram um símbolo tão adequado para a vida, sobretudo naqueles períodos difíceis em que até pensar em sair da cama dá vontade de desistir. Tudo o que quereríamos era taparmos a cabeça e dormirmos, sem pensarmos em nada, fingindo que não estamos nem aí…

Porque Tanatos, isto é, a voz do poço e da morte, nos convoca a cada minuto para que, enfim, nos entreguemos e acomodemos. Só que acomodar-se é abrir a porta a tudo aquilo que nos faz cúmplices do negativo. Descansaremos, sim, mas tornando-nos filhos do tédio e amantes da pusilanimidade, personagens do teatro daqueles que constantemente desperdiçam os seus próprios talentos e dificultam a vida dos outros.

E o desperdício da nossa vida, talentos e oportunidades é o único débito que no final não se poderá saldar: estaremos no arquivo morto.

Não que não tenhamos vontade ou motivos para desistir: corrupção, violência, drogas, doença, problemas no emprego, dramas na família, buracos na alma, solidão no casamento a que também nos acomodamos… tudo isso nos sufoca. Sobretudo, se pertencermos ao grupo cujo lema é: Pensar, nem pensar… e a vida que se lixe.

A escada rolante chama-nos para o fundo: não dou mais um passo, não luto, não me sacrifico mais. Para quê mudar, se a maior parte das pessoas nem pensa nisso e vive da mesma maneira, e da mesma maneira vai morrer?

Não vive (nem morrerá) da mesma maneira. Porque só nessa batalha consigo mesmo, percebendo engodos e superando barreiras, podemos também saborear a vida. Que até nos surpreende quando não se esperava, oferecendo-nos novos caminhos e novos desafios.

Mesmo que pareça quase uma condenação, a ideia de que viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce é que nos permite sentir que afinal não somos assim tão insignificantes e tão incapazes.

Então, vamos à escada rolante: aqui e ali até conseguirmos saltar degraus de dois em dois, como quando éramos crianças e muito mais livres, mais ousados e mais interessantes.

E porque não? Na pior das hipóteses, caímos, magoamo-nos por dentro e por fora, e podemos ainda uma vez… recomeçar.

*Lya Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938) é uma romancista, poetisa e tradutora brasileira. É também professora universitária e colunista da revista semanal Veja. Estudou em Porto Alegre (RS), onde se formou em pedagogia e letras anglo germânicas. Iniciou sua vida literária nos anos 60, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Lya Luft já traduziu para o português mais de cem livros.

“A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada”.

“Lembro-me do passado, não com melancolia ou saudade, mas com a sabedoria da maturidade que me faz projetar no presente aquilo que, sendo belo, não se perdeu.”

“Meu coração se transforma a cada experiência. Mas ainda palpita, sobressalta e se assusta. Ainda é vulnerável como quando eu tinha dez anos.”

“Apesar de todos os medos, escolho a ousadia. Apesar dos ferros, construo a dura liberdade.Prefiro a loucura à realidade, e um par de asas tortas aos limites da comprovação e da segurança.Eu, (……….), sou assim.
Pelo menos assim quero fazer: a que explode o ponto e arqueia a linha, e traça o contorno que ela mesma há de romper. A máscara do Arlequim não serve apenas para o proteger quando espreita a vida, mas concede-lhe o espaço de a reinventar.Desculpem, mas preciso lhes dizer: EU quero o delírio.”

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Post o tamanho da esperança

O tamanho da esperança

© Letícia Thompson

A esperança tem o tamanho da semente que plantamos no nosso coração.

O que nos faz desistir com frequência de um caminho é a visão longínqua demais do que deve ser percorrido. Só de olhar, já desistimos.

Por essa razão não tomamos atitudes, não recomeçamos um estudo, não ousamos algo novo, não nos construímos e nem damos exemplos aos nossos.

Não descobrimos lugares novos, não vamos visitar pessoas, não fazemos planos (ou fazemos e deixamos pela metade) e não concretizamos muitas coisas que seriam possíveis e proveitosas.

Nos cansamos antes do cansaço chegar.

É assim com muitas coisas do dia-a-dia: a esperança abandona seu lugar tão facilmente ao desânimo que no fim das contas não fazemos nada. E um dia olhamos pra trás e nos dizemos que se tivéssemos começado, já teríamos terminado.

Talvez, quem sabe, a terra do nosso coração esteja seca demais para fazer brotar a semente da esperança. Ou julgamos que essa semente é pequena demais para produzir algo grande.

Que ingenuidade da nossa parte!!! O tamanho de uma semente nada tem a ver com o tamanho da planta! Mas a fertilidade da terra, sim.

Os corações devem ser terras menos áridas, menos amargas, mais dóceis e mais receptivas e tudo aquilo que for plantado neles crescerá e prosperará.

O caminho a ser percorrido não deve ser medido com os olhos da desesperança.

Deus não vê o seu tamanho pela sua  estatura, mas pelo potencial que Ele só conhece do seu íntimo.

Ele joga sementes de grandes esperanças na terra do seu coração, mas você deve arar a terra, prepará-la e tomar a sua parte de responsabilidade. Os frutos, creia, serão seus!

O horizonte é maravilhoso demais e ele nos faz sonhar. Mas olhe para seus pés e veja onde deve começar, conte seus passos dando o melhor de si mesmo e daqui a algum tempo você vai poder olhar para trás e rir de satisfação.

Porque o tempo passa se você fica parado ou se você caminha. O que você realiza ou não depende de você ter começado ou não.

Ouse acreditar! Ouse dar passos! Ouse ousar!

Nós mesmos nascemos de pequenas sementes. Nascemos da esperança de Deus, que crê em nós e insiste. Ele sabe que somos todos capazes de chegar a algum lugar.

Cutiva a esperança

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Post _ espontaneidade_Rubia

Onde Foi Que Perdemos Nossa Espontaneidade

Rubia A. Dantés

Recentemente me encantei com a forma que uma criança, de mais ou menos seis meses, expressou-se ao ver uma pessoa que gostava…
Mostrou alegria e contentamento com tanta espontaneidade que era visível o entusiasmo que estava sentido por ver aquela pessoa e fazia tudo para demonstrar isso na forma que podia mexendo os bracinhos, sorrindo e dentro da sua linguagem, fazendo os sons que mostravam claramente sua alegria…

Pensei em quantos de nós, depois de adultos ainda se manifesta espontaneamente sempre que a presença de alguém ou de alguma coisa lhe toca sinceramente o coração…

Somos sujeitos a tantas regras de comportamento, tantas memórias de dor por termos exposto nosso sentimentos com verdade que quase sempre essa manifestação espontânea de apreço, de admiração, passa primeiro pelos muitos filtros e, no final, o que sobra pode ser só um cumprimento polido…

Todos querem nos colocar regras para que possamos nos inserir dentro da sociedade, dos grupos, das religiões e, com isso, não cabemos mais em nós mesmos. Vamos nos encolhendo daqui… acrescentando ali… para nos adaptarmos às muitas exigências que fazem para nos incluir nisso ou naquilo…

Parece que temos que aprender como nos comportar para sermos aceitos como membros dos muitos grupos que andam por aí, só que esse padrão leva em conta regras estabelecidas por outros e podem podar a espontaneidade e a nossa expressão mais genuína.

Sempre julgamos o outro a partir do nosso limitadíssimo ponto de vista, cujo exemplo somos nós mesmos. Se alguém faz coisas que fogem ao nosso altíssimo padrão de exigência de como as pessoas devem ser, já excluímos ou taxamos de inadequado.

Porque não observar o outro assim como observamos uma criança e, mesmo que sua ação fuja aos nossos padrões de normalidade, tentar ver a beleza que existe nas diferenças…

Quanto mais aceitamos o outro, mais aceitamos a nós mesmos porque o outro sempre está, também, dentro de nós.

Que limites estamos julgando estar sendo ultrapassados?
Quem colocou esses limites leva em conta o controle ou a fidelidade à alma?
Vamos seguindo cegamente tantas coisas sem nem questionar o que estamos seguindo e quem criou essas regras.

Elas são mesmo o que nos toca o coração, ou estamos sendo seguidores cegos de pessoas e ideias que não levam em conta a espontaneidade de cada um? O expressar-se com a alma?

Voltando à criança, como seria bom se ao invés de ensinar à elas o que é feio e o que é bonito, de acordo com as muitas regras duvidosas que aprendemos, tivéssemos o cuidado de não podar o que elas têm de mais puro, tivéssemos o cuidado de não colocar artificialidade e imitação no lugar da espontaneidade e da alegria natural de quem se expressa com a inocência, de quem ainda se lembra das estrelas…

A espontaneidade é a capacidade de se fazer seja o que for só porque nos sentimos com disposição para, em determinado momento, confiarmos nos nossos instintos, deixarmo-nos surpreender e arrancar dos grilhões da rotina bem organizada um pouco de prazer inesperado.

Richard Ianneli

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