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Archive for dezembro \29\UTC 2011

Post texto LêdaYara_Ano Novo

ANO NOVO! VIDA NOVA?

Lêda Mello

Ano Novo vem surgindo nas vizinhanças do tempo. É uma época em que costumamos pensar nas experiências vividas neste ano que está se despedindo e fazemos as nossas propostas de vida para o novo ano que vem chegando. Um tempo propício para mudanças. Pensando nesta mensagem que escrevi para você, busquei uma sugestão de roteiro na sabedoria destas palavras :

“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado…
Resignação para aceitar o que não pode ser mudado…
E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”

São Francisco de Assis

Mudar o que pode ser mudado requer, antes de tudo, decisão. Mas decisão é a metade do caminho. A outra metade fica por conta das atitudes. Elas é que farão acontecer as mudanças. Da mesma forma que a fé sem as obras é morta, decisão sem atitudes não acontece. Atitudes de mudanças requerem coragem e firmeza e este é um dos motivos de falharmos na execução das nossas propostas. Viver com o que já é conhecido é bem mais cômodo e, assim, acabamos deixando de lado as propostas de mudança, escolhendo viver e conviver com a mesmice da rotina já conhecida, embora ela seja causa de transtornos.

Escolhemos a maneira como queremos viver e isto não depende de fatores externos ou da vontade alheia. É coisa nossa. Personalíssima. Portanto, é de total responsabilidade nossa. Requer a compreensão de que quando escolhemos deixamos para trás o que haja sobrado da opção que fizemos, sem espaço para nos sabotarmos e nos deixarmos sabotar.

Aceitar o que não pode ser mudado, antes de resignação, requer a compreensão de que o que é o é por si mesmo, na sua essência. Pretender mudar a natureza do que quer que seja é uma luta inglória. Não está no âmbito do nosso poder. Aceitar-se e aceitar a vida com naturalidade são aprendizados que nos levam, com simplicidade, à aceitação do que existe fora de nós.

Saber distinguir o que pode ser mudado do que não pode é um pouco mais trabalhoso e São Francisco de Assis sabia do que estava falando quando pediu ao Senhor que lhe desse sabedoria. Requer uma varredura no que somos. É preciso humildade para que percebamos e aceitemos o que não está de acordo com os nossos pontos de vista. O fato (e os atos) de não usarmos de sabedoria para fazermos essa distinção leva-nos à falta de clareza e de realismo do que queremos de nós mesmos e dos outros. É assim que nascem a maioria das nossas insatisfações, decepções e desarmonias.

Ano Novo vem chegando. Um bom momento para as mudanças, de modo que a virada do ano não seja, apenas, uma data no calendário, mas um marco de virada na vida. Faça dessa data o ponto de partida para um real Novo Ano da sua história e tenha um Feliz Ano Novo. Aceite o desafio de ser você mesmo.

confraternização universal

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Post MarthaMedeiros_oqueacontecenomeio

O que acontece no meio

Martha Medeiros

 

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco, mas a que nos revela a nós mesmos.

Vida é o que existe entre o nascimento e a morte. O que acontece no meio é o que importa.

No meio, a gente descobre que sexo sem amor também vale a pena, mas é ginástica, não tem transcendência nenhuma. Que tudo o que faz você voltar pra casa de mãos abanando (sem uma emoção, um conhecimento, uma surpresa, uma paz, uma ideia) foi perda de tempo.

Que a primeira metade da vida é muito boa, mas da metade pro fim pode ser ainda melhor, se a gente aprendeu alguma coisa com os tropeços lá do início. Que o pensamento é uma aventura sem igual. Que é preciso abrir a nossa caixa preta de vez em quando, apesar do medo do que vamos encontrar lá dentro. Que maduro é aquele que mata no peito as vertigens e os espantos.

No meio, a gente descobre que sofremos mais com as coisas que imaginamos que estejam acontecendo do que com as que acontecem de fato. Que amar é lapidação, e não destruição. Que certos riscos compensam – o difícil é saber previamente quais. Que subir na vida é algo para se fazer sem pressa.

Que é preciso dar uma colher de chá para o acaso. Que tudo que é muito rápido pode ser bem frustrante. Que Veneza, Mykonos, Bali e Patagônia são lugares excitantes, mas que incrível mesmo é se sentir feliz dentro da própria casa. Que a vontade é quase sempre mais forte que a razão. Quase? Ora, é sempre mais forte.

No meio, a gente descobre que reconhecer um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Que é muito narcisista ficar se consumindo consigo próprio. Que todas as escolhas geram dúvida, todas. Que depois de lutar pelo direito de ser diferente, chega a bendita hora de se permitir a indiferença.
Que adultos se divertem muito mais do que os adolescentes. Que uma perda, qualquer perda, é um aperitivo da morte – mas não é a morte, que essa só acontece no fim, e ainda estamos falando do meio.

No meio, a gente descobre que precisa guardar a senha não apenas do banco e da caixa postal, mas a senha que nos revela a nós mesmos. Que passar pela vida à toa é um desperdício imperdoável. Que as mesmas coisas que nos exibem também nos escondem (escrever, por exemplo).
Que tocar na dor do outro exige delicadeza. Que ser feliz pode ser uma decisão, não apenas uma contingência. Que não é preciso se estressar tanto em busca do orgasmo, há outras coisas que também levam ao clímax: um poema, um gol, um show, um beijo.

No meio, a gente descobre que fazer a coisa certa é sempre um ato revolucionário. Que é mais produtivo agir do que reagir. Que a vida não oferece opção: ou você segue, ou você segue. Que a pior maneira de avaliar a si mesmo é se comparando com os demais. Que a verdadeira paz é aquela que nasce da verdade. E que harmonizar o que pensamos, sentimos e fazemos é um desafio que leva uma vida toda, esse meio todo.

ZERO HORA – 04/12/11

martha medeiros

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Post Uma flor selvagem_Lya Luft

Uma Flor Selvagem

Lya Luft*

O amor é uma escultura que se faz sozinha.

É uma flor inesperada sem estação do ano para surgir nem para morrer. Vai sendo esboçada assim ao léo: aqui a sobrancelha se arqueia, ali desce a curva do pescoço, a mão toca a ponta de um pé, no meio estende-se a floresta das mil seduções.

Imponderável como a obra de arte, o amor nem se define nem se enquadra: é cada vez outro, e novo, embora tão velho.

Intemporal.

Planta selvagem, precisa de ar para desabrochar, mas também se move nos vãos mais escuros, em ambientes sufocantes onde rebrilham os olhos malignos da traição ou da indiferença, e a culpa o pode matar. O convívio é o exército do amor na corda bamba. Os corpos se acomodam, as almas se espreitam, até se complementam.

Mas pode-se cair no tédio – sem rede –, e bocejar olhando pela janela.

Inventamos receitas para que o amor melhore, perdure, se incendeie e renove… nem murche nem morra. Nenhuma funciona: ele foge de qualquer sensatez, como o perfume das maçãs escapa num cesto de vime tampado.

Se fossemos sensatos haveríamos de procurar nem amar, amar pouco, amar menos, amar com hora marcada e limites.

Mas o amor, que nunca tem juízo, nos prega peças quando e onde menos esperamos. Nunca nos sentimos tão inteiros como nesses primeiros tempos em que estamos fragmentados: tirados de nós mesmos e esvaziados de tudo o mais, plenos só do outro em nós. Sentimos-nos melhores, mais bonitos, andamos com mais elegância, amamos mais os amigos, todo mundo foi perdoado, nosso coração é um barco para o qual até naufragar seria glorioso (ah, que naufrágios…).

Mais que isso, nesse castelo – como em qualquer castelo – não pode haver dois reis. Quem então cederá seu lugar, quem será sábio, quem se fará gueixa submissa ou servo feliz, para que o outro tome o lugar e se entronize e… reine?

A palavra “liberdade” teria de ser mais presente, porém é mais convidada a discretamente afastar-se e permitir que em seu lugar assuma o comando alguma subalterna: tolerância, resignação, doação, adaptação. Rondando o fosso do castelo, a vilã de todas…a culpa. Quem deixou sobre minha mesa o bilhete dizendo “se você ama alguém, deixe-o livre” sabia das coisas, portanto sabia também o desafio que me lançava.

No mundo das palavras há tantos artifícios quantas são as nossas contradições. Por isso, conviver é tramar, trançar, largar, pegar, perder. E nunca definitivamente entender o que – se fossemos um pouco sábios – deveríamos fazer. Farsa, tragédia grega, outras soneto perfeito: o amor, com as palavras, se disfarça em doces armadilhas ou lâminas.


*Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938) é uma escritora e tradutora brasileira. É também uma professora universitária aposentada e colunista da revista semanal Veja.

“A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada”. (Lya Luft)

“Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.” (Lya Luft)

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