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Archive for julho \30\UTC 2012

Post OtoLaraResende_VistaCansada

Uma crônica de Otto Lara Resende*

Vista cansada

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez?

Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo certo modo de ver, disse o poeta.

Um poeta é só isto: certo modo de ver.

O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não vendo.

Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê.

Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência.

O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.

O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê.

Há pai que nunca viu o próprio filho.

Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas.

Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

*Otto Lara Resende é autor mineiro, nascido em São João Del Rei/MG, na rua da Matola, nº 9 em 1º de maio de 1922. Já seu falecimento ocorreu no Rio de Janeiro em 1992. Sua vocação literária, todavia, tem origens universais e obedece a etapas. Antes do literato, houve o jornalista e, antes deste, o leitor.

Seu pai, Antônio de Lara Resende, era professor, gramático e memorialista, além de legítimo representante da Tradicional Família Mineira (TFM). Casado com D. Maria Julieta de Oliveira teve 20 filhos, dos quais Otto era o quarto.

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Post_MarthaMedeiros_Impontualidade_do_amor

A IMPONTUALIDADE DO AMOR

(Se você está sozinho ou não)

Martha Medeiros

Você está sozinho. Você e a torcida do Flamengo. Em frente à tevê, devora dois pacotes de Salgadinhos enquanto espera o telefone tocar. Bem que podia ser hoje, bem que podia ser agora, um amor novinho em folha.

Trimmm! Trimmm! É a sua mãe… (quem mais poderia ser?). Amor nenhum faz chamadas por telepatia.

Amor não atende com hora marcada. Ele pode chegar antes do esperado e encontrar você numa fase “galinha”, sem disposição para relacionamentos sérios. Ele passa batido e você nem aí. Ou pode chegar tarde demais e encontrar você desiludido da vida, desconfiado, cheio de olheiras. O amor dá meia-volta, volver. Por que o amor nunca chega na hora certa?

Agora, por exemplo, que você está de banho tomado e camisa jeans?
Agora que você está se achando bonito?
Agora que você está empregado?
Agora que você pintou o apartamento, ganhou um porta-retratos e começou a gostar de jazz?
Agora que você está com o coração às moscas e morrendo de frio?

O amor aparece quando menos se espera e de onde menos se imagina.
Você passa um ano inteiro hipnotizado por alguém que nem lhe enxerga e mal repara em outro alguém que só tem olhos para você. Ou então, fica arrasado porque não foi pra praia no final de semana, os seus amigos estão lá, azarando-se uns aos outros. Sentindo-se um ET perdido na cidade grande, você busca refúgio numa locadora de vídeo, sem prever que ali mesmo, na locadora, irá encontrar a pessoa que dará sentido à sua vida. O amor é como tesourinha de unha: nunca está onde a gente pensa.

O jeito é direcionar o radar para norte, sul, leste e oeste. Seu amor pode estar no corredor de um supermercado, pode estar impaciente na fila de um banco, pode estar pechinchando numa livraria, pode estar cantarolando sozinho dentro de um carro. Pode estar aqui mesmo, no computador, dando o maior mole. O amor está em todos os lugares, talvez você não o procure direito. A primeira lição está dada: o amor é onipresente.

Agora a segunda: o amor é imprevisível. Jamais espere ouvir “eu te amo” num jantar a luz de velas, no dia dos namorados. Ou receber flores logo após a primeira transa. O amor odeia clichês. Você vai ouvir “eu te amo” numa terça-feira, às quatro da tarde, depois de uma discussão, ou quando você menos esperar. E as flores vão chegar num dia qualquer apenas para informar-lhe como você é especial para alguém. Assim… sem um motivo ou data especial.

Fale desse assunto com outras pessoas. Pode ser que alguém esteja precisando ouvir algo reconfortante… Ou mesmo para aqueles que já encontraram o amor, apenas para lembrá-los de valorizá-lo ainda mais.

Espalhe que o amor não é banal. E que, embora estejam distorcendo o sentido verdadeiro dele nos tempos modernos de hoje, ele existe e é o ingrediente mais importante da vida, a própria porção mágica da Felicidade.

“Amar é mudar a alma de casa”

“Nada tenho a ver com não gostar de mim. Me aceito impura, me gosto com pecados, e há muito me perdoei.”

Martha Medeiros

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Post LyaLuft__A mentirosa liberdade

A mentirosa liberdade

Lya Luft

Liberdade não vem de correr atrás de ‘deveres’ impostos de fora, mas de construir a nossa existência

Comecei a escrever um novo livro, sobre os mitos e mentiras que nossa cultura expõe em prateleiras enfeitadas, para que a gente enfie esse material na cabeça e, pior, na alma – como se fosse algodão-doce colorido. Com ele chegam os medos que tudo isso nos inspira: medo de não estar bem enquadrados, medo de não ser valorizados pela turma, medo de não ser suficientemente ricos, magros, musculosos, de não participar da melhor balada, do clube mais chique, de não ter feito a viagem certa nem possuir a tecnologia de ponta no celular. Medo de não ser livres.

Na verdade, estamos presos numa rede de falsas liberdades. Nunca se falou tanto em liberdade, e poucas vezes fomos tão pressionados por exigências absurdas, que constituem o que chamo a síndrome do “ter de”. Fala-se em liberdade de escolha, mas somos conduzidos pela propaganda como gado para o matadouro, e as opções são tantas que não conseguimos escolher com calma. Medicados como somos (a pressão, a gordura, a fadiga, a insônia, o sono, a depressão e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), cedo recorremos a expedientes, porque nossa libido, quimicamente cerceada, falha, e a alegria, de tanta tensão, nos escapa.

Preenchem-se fendas e falhas, manchas se removem, suspendem-se prazeres como sendo risco e extravagância, e nos ligamos no espelho: alguém por aí é mais eficiente, moderno, valorizado e belo que eu? Alguém mora num condomínio melhor que o meu? Em fileira ao longo das paredes temos de parecer todos iguais nessa dança de enganos. Sobretudo, sempre jovens. Nunca se pôde viver tanto tempo e com tão boa qualidade, mas no atual endeusamento da juventude, como se só jovens merecessem amor, vitórias e sucesso, carregamos mais um ônus pesadíssimo e cruel: temos de enganar o tempo, temos de aparentar 15 anos se temos 30, 40 anos se temos 60, e 50 se temos 80 anos de idade. A deusa juventude traz vantagens, mas eu não a quereria para sempre: talvez nela sejamos mais bonitos, quem sabe mais cheios de planos e possibilidades, mas sabemos discernir as coisas que divisamos, podemos optar com a mínima segurança, conseguimos olhar, analisar e curtir – ou nos falta o que vem depois: maturidade?

Parece que do começo ao fim passamos a vida sendo cobrados: O que você vai ser? O que vai estudar? Como? Fracassou em mais um vestibular? Já transou? Nunca transou? Treze anos e ainda não ficou? E ainda não bebeu? Nem experimentou uma maconhazinha sequer? E um Viagra para melhorar ainda mais? Ainda aguenta os chatos dos pais? Saiba que eles o controlam sob o pretexto de que o amam. Sai dessa! Já precisa trabalhar? Que chatice! E depois: Quarenta anos ganhando tão pouco e trabalhando tanto? E não tem aquele carro? Nunca esteve naquele resort?

Talvez a gente possa escapar dessas cobranças sendo mais natural, cumprindo deveres reais, curtindo a vida sem se atordoar. Nadar contra toda essa louca correnteza. Ter opiniões próprias, amadurecer, ajuda. Combater a ânsia por coisas que nem queremos, ignorar ofertas no fundo desinteressantes, como roupas ridículas e viagens sem graça, isso ajuda. Descobrir o que queremos e podemos é um bom aprendizado, mas leva algum tempo: não é preciso escalar o Himalaia social nem ser uma linda mulher nem um homem poderoso. É possível estar contente e ter projetos bem depois dos 40 anos, sem um iate, físico perfeito e grande fortuna. Sem cumprir tantas obrigações fúteis e inúteis, como nos ordenam os mitos e mentiras de uma sociedade insegura, desorientada, em crise.

Liberdade não vem de correr atrás de “deveres” impostos de fora, mas de construir a nossa existência, para a qual, com todo esse esforço e desgaste, sobra tão pouco tempo. Não temos de correr angustiados atrás de modelos que nada têm a ver conosco, máscaras, ilusões e melancolia para aguentar a vida, sem liberdade para descobrir o que a gente gostaria mesmo de ter feito.

“Tudo que escrevo é meu e vem de mim; é visceral e vital.” [Lya Lutf]

Obs.: No programa Marília Gabriela Entrevista

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Post Silvia_Quando tudo dá errado

O que fazer quando tudo dá errado?

por Maria Silvia Orlovas*

Não é nada fácil lidar com as frustrações, porque encarar o erro significa também que participamos disso. E parece que a primeira atitude frente a algo que saiu errado, que nos magoou, é nos colocar na posição de vítima. E ainda que qualquer história tenha dois ou mais lados, quando sentimos que perdemos, que sofremos, é muito natural nos sentirmos traídos, mal compreendidos, desprezados.

Claro que somos mais do que a dor, somos muito maiores que as perdas, e é natural a gente se deixar cair, o que não podemos é nos acostumar à postura de vítima e ficar o tempo todo em que levamos um contra nos recolhendo nessa triste realidade.

Acho, no mínimo, engraçado a atitude de aceitar tão facilmente uma derrota e reclamar do destino infeliz, porque é claro que nem tudo é como a gente quer. Mas isso não significa que em cada tombo, em cada revés do destino não tenhamos chance de mudar as atitudes e de encontrar caminhos alternativos. Podemos e devemos nos recriar, então, porque nos aprisionar na condição de inferioridade que o estado de vítima nos oferece?

Somos mais que a vítima, somos mais que o vencedor, somos humanos, normais, pessoas que às vezes acertam, em outras erram. Temos sonhos e frustrações quando apostamos em resultados que não chegam, mas perder não significa que somos ruins, fracos ou incompetentes. Significa apenas que aquele caminho não deu certo, que aquela aposta não trouxe o resultado esperado, que aquela pessoa não era o que imaginávamos, mas nós podemos e devemos continuar da experiência para frente e, de preferência, sem mágoas.

Aliás, a mágoa, a frustração e consequente depressão tomam conta da nossa vida quando não conseguimos lidar com a derrota, com o fracasso, com os contras que recebemos da vida. Inclusive, tratei algumas pessoas com síndrome do pânico que, na verdade, eram totalmente imaturas em relação a lidar com as dificuldades. Veja bem que essa imaturidade não tem nada a ver com idade cronológica e, sim, com uma dinâmica pessoal pobre em auto-estima. Percebi que as pessoas com síndrome do pânico queriam demais que suas apostas dessem certo, que as pessoas aceitassem a rota que traçaram para si mesmas e para seus companheiros. Claro que não podemos generalizar e dizer que todos que sofrem dessa síndrome são assim, mas, há em comum a todas as pessoas que enfrentam sofrimento, um desejo de não mais sofrer, de conseguir algum tipo de controle da vida e das experiências, o que não inclui o fracasso.
Mas será que alguém controla o destino, que faz tudo certo, que não erra, ou leva um fora?

Claro que não. Todos nós erramos e quanto mais espertos formos ao entender a hora de parar, refletir e mudar de rota, com certeza, as experiências serão menos doloridas e não será necessário tanto desgaste para compreender que é o momento de mudar.

Tudo tem limites: sofrer por amor tem limite, sofrer pela família também. Sofrer pelo trabalho, pela convivência, por se sentir sozinho… Tudo isso exige que façamos um mergulho interior, uma meditação profunda em nossas apostas. Pois se olharmos de forma menos apaixonada para nossa história, com menos emoção e menos apego aos resultados que traçamos, com certeza, teremos mais luz para pensar em alternativas.

As pessoas não merecem tanto sofrimento por conta de um amor que não deu certo e, principalmente, não merecem se afundar na frustração dos planos falidos. Mas é preciso de muita luz, meditação, oração para se levantar e olhar para outra direção. Porém, de que serve a vida se não para a gente viver, abrir-se para cada momento e cada experiência?

A vida não vem pronta, nós não nascemos prontos, estamos aqui para recriar a cada dia o nosso destino. Compreendendo isso, assumi para minha vida um ditado do amado mestre Yogananda: aceito as mudanças com alegria porque elas vêm para o meu bem!

E é isso que desejo a você!

*Formada em Belas-Artes pela faculdade Santa Marcelina, trabalhou como arte educadora em escolas e grupos e hoje coordena o Espaço Alpha-Lux que atua na área alternativa, com palestras e cursos voltados ao autoconhecimento.

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Post AlexandreGarcia_Sentar_se_junto_a_janela

Sentar-se à janela do avião

Alexandre Garcia*

Era criança quando, pela primeira vez, entrei em um avião. A ansiedade de voar era enorme.

Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o voo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem.

Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul.

Tudo era novidade e fantasia…

Cresci me formei, e comecei a trabalhar. No meu trabalho, desde o início, voar era uma necessidade constante. As reuniões em outras cidades e a correria me obrigavam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia.

No início pedia sempre poltronas ao lado da janela, e, ainda com olhos de menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a bagagem, coisa e tal.

O tempo foi passando, a correria aumentando, e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse.

Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido.

As poltronas do corredor agora eram exigência. Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem, comigo mesmo.

Por um desses maravilhosos ‘acasos’ do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa, precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível.

O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na última poltrona.

Sem pensar concordei de imediato, peguei meu bilhete e fui para o embarque.

Embarquei no avião, me acomodei na poltrona indicada: a janela. Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual já não me preocupava em olhar.

E, num rompante, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara. Senti novamente e estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga. Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu.

Era de um azul tão lindo como jamais tinha visto. E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer.

Naquele instante, em que voltei a ser criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem em que desprezava aquela vista.

Pensei comigo mesmo: será que em relação às outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, do meu casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?

Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida.

A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens, que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos.

Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade de apreciar as belezas que a viagem nos oferece.

Se você também está num ritmo acelerado, pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e ‘ganhar tempo’, pare um pouco e reflita sobre aonde você quer chegar. A aeronave da nossa existência voa célere e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante.

Não sabemos quanto tempo ainda nos resta. Por essa razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe.

Afinal, ‘a vida, a felicidade e a paz são caminhos e não destinos’.

*Alexandra Garcia é um jornalista, apresentador, comentarista de telejornais, colunista político e conferencista brasileiro. (Cachoeira do Sul/RS)

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