Feeds:
Posts
Comentários

Archive for agosto \29\-03:00 2012

Artur da Távola_Tudo bem mas tudo ruim

ARTUR DA TÁVOLA

Tudo bem, mas tudo ruim

O “tudo bem” é uma expressão profundamente brasileira. Somos um povo pacífico e acomodado. Término do romance, sem dinheiro, brigou com a família e, após contar a desgraça inteira, diz: “Mas tudo bem”.

Na verdade, preferimos fingir que não ligamos e secretamente diluir o que nos chateia ou oprime, a remover o mal sob forma cirúrgica. Para tal, o “tudo bem” cai como luva. Revela uma espécie de certeza de que nada é duradouro, tudo acabará modificado, por mais que a rigidez pareça dominar. O “tudo bem” possui duas outras leituras que latejam por dentro de sua significação aparente. São elas: “Não faz mal” e “deixa comigo que adiante eu dou um jeito”.

“Não faz mal” quer dizer “não importa”, “não há de ser nada”, “tentaram me atingir mas não conseguiram”. Quer, portanto, dizer: “Olha, eu não desistirei; estou apenas fingindo que não ligo”.

O “deixa comigo que adiante eu dou um jeito” revela outra atitude sábia do chamado caráter nacional. Eis sua tradução detalhada palavra por palavra: “Eu sei que as coisas não duram. Sei, também, que, enquanto estão quentes, as pessoas se aferram. Não adianta forçar nessas horas. É esperar a emoção, o impulso, a vontade e a teimosia passarem e, na medida em que a realidade tiver atuado sobre elas, diluindo o rigor anterior, então a gente entra na brecha e vai fazendo do jeito que quiser”.

Na medida, portanto, em que a expressão “tudo bem”, como espelho da maneira de ser, da psicologia, do caráter e do comportamento brasileiros, possui essas duas conotações revela algumas características (e até virtudes) da maneira de ser brasileira; paciência; teimosia; capacidade de esperar; certeza de que não fará o que não quer fazer; confiança nos seus próprios métodos; certeza de que a realidade é sempre complexa e acaba se impondo com a variedade de seus resultados; convicção de que mexer demais nas coisas acaba atrapalhando; percepção de que nada é duradouro; de que é necessária criatividade para impedir as deformações da imposição de qualquer certeza exagerada; fé no tempo como o grande e lúcido mediador das coisas; falta de pressa; e certeza na própria decisão. E, também, certa capacidade de perdoar e encontrar desculpas para as coisas e prosseguir. O lado sábio do brasileiro é enrustido. Por malandragem ele finge não existir.

Que é tudo isso? Uma teoria de acomodação? Do deixa pra depois? Da alienação? Estarei teorizando sobre o conformismo, uma característica negativa da nossa maneira de ser?

Se é o que você acha, leitor, então tudo bem, tudo bem: mais adiante a gente se entende, ou você me entende, ou eu o entendo, tudo bem, não esquente a cabeça e vá em frente que no fim acaba dando tudo certo. Brasileiramente. Ainda bem; isto é, tudo bem.

Tudo bem?

********************

Frase ArturTávola__capaz de amar

Read Full Post »

Pos Quero silêncio - Anna Veronica Mautner

Quero silêncio

Anna Verônica Mautner*

Silêncio. Silêncio, por favor. Psiu. Gritamos e colocamos janelas à prova de som, paredes almofadadas, tapetes, forros etc. O barulho de construção, de serra elétrica, de motores de carro, de buzinas – é o preço da modernidade, mas não é sobre isso que eu quero falar, e sim sobre o barulho humano de crianças e jovens. Quero falar dos sons das gentes.

Há anos, fala-se sobre a dificuldade de conciliar modernidade com ausência de silêncio e falta de espaço. Amplo espaço silencioso virou artigo de luxo.
Contudo, tenho que confessar que somos nós, adultos, que liberamos e orquestramos esse inferno em que o barulho humano transformou o nosso mundo. Assentimos que ruídos ensurdecedores feitos por crianças, jovens e jovens adultos dominem.

Existem certos recintos que não conseguimos evitar, e, assim, ninguém consegue um encontro consigo mesmo, que sem silêncio é impossível.
Nada contra a alegria e tudo contra o som pelo som, só para fazer companhia e evitar esse encontro. Musiquinha de fundo invade o planeta. Ficamos sem refúgio. Solidão e silêncio viraram palavrão?

Creiam-me, mesmo em hotéis grandões, é difícil encontrar lugar onde a criança entra sem fazer barulho. Só no bar, onde o escurinho à meia-luz é sinal, aliás, o único respeitado pelas crianças. Em todos os lugares, seja ônibus, avião, lanchonete, cantina, somos envolvidos por gritos e por música, jamais por sussurros.

Como é que as crianças, as mesmas que gritam e galopam pelos corredores, conseguem manter-se em silêncio na missa, no culto, em enterros e em velórios? Como é que respeitam também o cinema?

Pode parecer até que sou contra criança, mas não sou, não, pois acho que somos nós, os adultos, por temer o silêncio, que instigamos ou deixamos o barulho vingar em volta de nós.

Quando vem uma ordem de silêncio pra valer, elas se calam e param de correr. Vivemos um momento e em um universo em que a aversão ao silêncio não se manifesta só com música de fundo, com escapamento desregulado, com os motoqueiros, mas ainda nos damos ao luxo de liberar qualquer barulhento em qualquer lugar.

O que aconteceria se, de repente, o silêncio caísse sobre nós? Respondo: discursos interiores, voz da “consciência”, emergiriam. Talvez sejamos todos culpados por maus pensamentos e/ou intenções, o que nos leva a viver em permanente esquiva de nós mesmos.

Com a barulheira que nos rodeia, tornamo-nos surdos a nós mesmos. Parece que o lema atual é: evitar o silêncio é o dever de todos. Deseduquem-se os outros. Silêncio é necessário para que se possa manter os homens como seres pensantes, criativos, dotados de memória e livres do excesso de estresse.

Não quero que o silêncio só exista na calada da noite, no alto das montanhas, no ermo das matas. Quero-o no contato com as pessoas queridas, ricas e coloridas – meus semelhantes.

Não quero ser misantropa, quero ruído normal que me permita falar, sentir e pensar.

*Anna Verônica Mautner, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de “Cotidiano nas Entrelinhas” (ed. Ágora)

Extraído do site Folha de São Paulo – Caderno Equilíbrio – 02/11/2006
O silêncio_Josh Billings

Read Full Post »

Post Dalcides Biscalquin_Sobre a pressa

A vida cobra as nossas pressas

© Dalcides Biscalquin*

(Presente de Cl.Eiko – SP)

Eu não sei ao certo se na minha infância as horas passavam depressa ou se os dias eram lentos. A verdade é que eu não tinha a noção do tempo e das suas ilusórias modalidades.

Viver era a ausência de mistérios. Brincávamos com os amigos de rua, íamos à escola próxima de casa, assistíamos à programação televisiva de uma das quatro emissoras disponíveis na tela da TV da época. E eu não me lembro de alguma vez ter dito que não estava passando nada de bom na TV. A vida era simples e desprovida de qualquer pretensão imaginária. Viver era a arte de simplesmente estar lá, como estavam as plantas, as flores e os pássaros.

Em que momento a vida teria me feito perder a leveza e a ingenuidade?

Em que final de tarde teria eu deixado que as inquietações me roubassem o sono restaurador das noites?

E aqui eu cheguei, contando os segundos para a próxima atividade. Desesperado em não perder tempo, transformando o relógio em juiz de causas imperdíveis.

Ingressar no mundo adulto trouxe muitas vantagens, mas custou a perda de um modo leve de ser e de estar no mundo.

Por que essa ansiedade me consome?

Por que essa superficialidade nas pressas dos relacionamentos?

Às vezes, é preciso parar um pouco para, então, nos lembrarmos de que ainda fazemos parte da vida, ou melhor, que a vida ainda faz parte da nossa existência.

Quando tudo passa a ser feito de forma automática e veloz não há condição possível para sentirmos o sabor das experiências vividas. Tudo se relativista numa sucessão de acontecimentos desconexos.

E a vida sempre acaba por nos cobrar as pressas e as superficiais escolhas consequentes das nossas urgências.

Se um dia a vida foi para mim simples estar lá, hoje corro o risco de nas pressas da vida estar ausente não apenas de um lugar, mas ausente de mim mesmo.

Então, que a calma, enfim, me acorde a alma.

*Dalcides do Carmo Biscalquin nasceu em Piracicaba (SP), em 1967 .É mestre em Comunicação pela Università Pontificia Salesiana de Roma (Itália) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), licenciado em Filosofia pela Faculdade Salesiana de Lorena e bacharel em Teologia pelo Instituto Salesiano Pio XI de São Paulo.

Read Full Post »

Post Artur da Távola - Ser Pai

Ser pai

Artur da Távola*

De todas as minhas modestas dimensões humanas, a que mais me realiza é a de ser pai.

Ser pai é, acima de tudo, não esperar recompensas. Mas ficar feliz caso e quando cheguem.

É saber fazer o necessário por cima e por dentro da incompreensão.

É aprender a tolerância com os demais e exercitar a dura intolerância (mas compreensão) com os próprios erros.

Ser pai é aprender, errando, a hora de falar e de calar.

É contentar-se em ser reserva, coadjuvante, deixado para depois. Mas jamais falar no momento preciso. É ter a coragem de ir adiante, tanto para a vida quanto para a morte. É viver as fraquezas que depois corrigirá no filho, fazendo-se forte em nome dele e de tudo o que terá de viver para compreender e enfrentar.

Ser pai é aprender a ser contestado mesmo quando no auge da lucidez. É esperar. É saber que experiência só adianta para quem a tem, e só se tem vivendo. Portanto, é aguentar a dor de ver os filhos passarem pelos sofrimentos necessários, buscando protegê-los sem que percebam, para que consigam descobrir os próprios caminhos.

Ser pai é: saber e calar. Fazer e guardar. Dizer e não insistir. Falar e dizer. Dosar e controlar-se. Dirigir sem demonstrar. É ver dor, sofrimento, vício, queda e tocaia, jamais transferindo aos filhos o que, a alma, lhe corrói.

Ser pai é ser bom sem ser fraco. É jamais transferir aos filhos a quota de sua imperfeição, o seu lado fraco, desvalido e órfão.

Ser pai é aprender a ser ultrapassado, mesmo lutando para se renovar. É compreender sem demonstrar, e esperar o tempo de colher, ainda que não seja em vida.

Ser pai é aprender a sufocar a necessidade de afago e compreensão. Mas ir às lágrimas quando chegam.

Ser pai é saber ir-se apagando à medida em que mais nítido se faz na personalidade do filho, sempre como influência, jamais como imposição. É saber ser herói na infância, exemplo na juventude e amizade na idade adulta do filho. É saber brincar e zangar-se. É formar sem modelar, ajudar sem cobrar, ensinar sem o demonstrar, sofrer sem contagiar, amar sem receber.

Ser pai é saber receber raiva, incompreensão, antagonismo, atraso mental, inveja, projeção de sentimentos negativos, ódios passageiros, revolta, desilusão e a tudo responder com capacidade de prosseguir sem ofender; de insistir sem mediação, certeza, porto, balanço, arrimo, ponte, mão que abre a gaiola, amor que não prende, fundamento, enigma, pacificação.

Ser pai é atingir o máximo de angústia no máximo de silêncio. O máximo
de convivência no máximo de solidão.

É, enfim, colher a vitória exatamente quando percebe que o filho a quem ajudou a crescer já, dele, não necessita para viver. É quem se anula na obra que realizou e  sorri, sereno, por tudo haver feito para deixar de ser importante.

PARABÉNS AOS PAIS

No dia dos pais__ao meu pai

*Artur da Távola, o pseudônimo de Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros, nascido no Rio de Janeiro em 02/01/1936 e falecido na mesma cidade em 09/05/2008, foi um advogado, jornalista, radialista, escritor, professor e político brasileiro. Ele marcou seus telespectadores com uma de suas mais célebres frases:

“Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão”

Read Full Post »