Feeds:
Posts
Comentários

Archive for outubro \31\UTC 2012

Post O vitral__Osman Lins

O vitral

Osman Lins*

Desde muito, ela sabia que o aniversário, este ano, seria num domingo. Mas só quando faltavam quatro ou seis semanas, começara a ver na coincidência uma promessa de alegrias incomuns e convidara o esposo a tirarem um retrato. Acreditava que este haveria de apreender seu júbilo, do mesmo modo que o da Primeira Comunhão retivera para sempre os cânticos.

— Ora… Temos tantos… – respondera o homem. – Se tivéssemos filhos… Aí, bem. Mas nós dois! Para que retratos? Dois velhos!

A mão esquerda, erguida, com o indicador e o médio afastados, parecia fazer da solidão uma coisa tangível – e ela se reconhecera com tristeza no dedo menor, mais fino e recurvo. Prendera grampos aos cabelos negros, lisos, partidos ao meio, e levantara-se.

— Está bem. Você não quer… (A voz nasalada, contida, era um velho sinal de desgosto).

—Suas tolices, Matilde… Quando é isso?

Como se a ideia a envergonhasse, ela inclinara a cabeça:

—Em setembro – dissera. – No dia vinte e quatro. Cai num domingo e eu…

—Ah! Uma comemoração – interrompera o esposo. – Vinte anos de casamento… Um retrato ameno e primaveril. Como nós.

Na véspera do aniversário, ao deitar-se, ela ainda lembrara essas palavras purificara-se da ironia e as repetira em segredo, sentindo-se reconduzida ao estado de espírito que lhe advinha na infância, em noites semelhantes: um oscilar entre a espera de alegrias e o receio de não as obter.

Agora, ali estava o domingo, claro e tépido, com réstias de sol no mosaico, no leito, nas paredes, mas não com as alegrias sonhadas, sem o que tudo o mais se tornava inexpressivo.

—Se você não quiser, eu não faço questão do retrato – disse ela. Foi tolice.

—O fotógrafo já deve estar esperando. Por que não muda o penteado? Ainda há tempo.

— Não. Vou assim mesmo.

Abriu a porta, saíram. Flutuavam raras nuvens brancas; as folhas das aglaias tinham um brilho fosco. Ela deu o braço ao marido e sentiu, com espanto, uma anunciação de alegrias no ar, como se algo em seu íntimo aguardasse aquele gesto.

Seguiram. Soprou um vento brusco, uma janela se abriu, o sol flamejou nos vidros. Uma voz forte de mulher principiou a cantar, extinguiu-se, a música de um acordeão despontou indecisa, cresceu. E quando o sino da Matriz começou a vibrar, com uma paz inabalável e sóbria, ela verificou exultante que o retrato não ficaria vazio: a insubstancial riqueza daqueles minutos o animaria para sempre.

— Manhã linda! – murmurou. – Hoje eu queria ser menina.

— Você é.

A afirmativa podia ser uma censura, mas foi como um descobrimento que Matilde a aceitou. Seu coração bateu forte, ela sentiu-se capaz de rir muito, de extensas caminhadas, e lamentou que o marido, circunspecto, mudo, estivesse alheio à sua exultação. Guardaria, assim, através dos anos, uma alegria solitária, da qual Antônio para sempre estaria ausente.

Mas quem poderia assegurar, refletiu, que ele era, não um participante de seu júbilo, mas a causa mesma de tudo o que naquele instante sentia; e que sem ele o mundo e suas belezas não teriam sentido?

Estas perguntas tinham o peso de afirmativas e ela exclamou que se sentia feliz.

—Aproveite – aconselhou ele. – Isso passa.

—Passa. Mas qualquer coisa disto ficará no retrato. Eu sei.

As duas sombras, juntas, resvalavam no muro e na calçada, sobre a qual ressoavam seus passos.

—Não é possível guardar a mínima alegria – disse ele. – Em coisa alguma. Nenhum vitral retém a claridade.

Cinco meninas apareceram na esquina, os vestidos de cambraia parecendo-lhes comunicar sua leveza, ruidosas, perseguindo-se, entregues à infância e ao domingo que fluíam com força através delas. Atravessaram a rua, abriram um portão, desapareceram.

Ela apertou o braço do marido e sorriu, a sentir que um júbilo quase angustioso jorrava de seu íntimo. Compreendera que tudo aquilo era inapreensível: enganara-se ou subestimara o instante ao julgar que poderia guardá-lo. “Que este momento me possua, me ilumine e desapareça” – pensava. – “Eu o vivi. Eu o estou vivendo”.

Sentia que a luz do sol a trespassava, como a um vitral.

(“Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”)

*Osman Lins: autor do enigmático romance ‘Avalovara’, nasceu em Vitória do Santo Antão (PE) em 05/07/1924 e aos 16 anos de idade mudou-se para o Recife, onde ingressou no curso de finanças. Posteriormente estudou dramaturgia na Universidade do Recife. Por concurso, ingressou no Banco do Brasil em 1943.
Casado primeiramente com Maria do Carmo teve três filhas. Sua estreia na ficção se deu com a publicação de seu primeiro romance, “O Visitante”, em 1955. Sua primeira peça teatral encenada foi “Lisbela e o prisioneiro”, adaptada com sucesso para o cinema em 2003.
Ensinou literatura brasileira como professor universitário. Osman Lins colaborou com diversos órgãos de imprensa e escreveu roteiros para televisão. Autor de uma vasta obra reconhecida pela crítica, recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio Monteiro Lobato e o prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras. Faleceu na cidade de São Paulo no dia 8 de julho de 1978.

Anúncios

Read Full Post »

MarthaMedeiros_Dieta_da_alma

Dieta da alma

Martha Medeiros

Arroz, feijão, bife, ovo. Isso nós temos no prato, é a fonte de energia que nos faz levantar de manhã e sair para trabalhar. Nossa meta primeira é a sobrevivência do corpo.Mas como anda a dieta da alma?

Outro dia, no meio da tarde, senti uma fome me revirando por dentro. Uma fome que me deixou melancólica. Dei-me conta de que estava indo pouco ao cinema, conversando pouco com as pessoas, e senti uma abstinência de viajar que me deixou até meio tonta. Minha geladeira, afortunadamente, está cheia, e ando até um pouco acima do meu peso ideal, mas me senti desnutrida. Você já se sentiu assim também, precisando se alimentar?

Revista, jornal, internet, isso tudo nos informa, nos situa no mundo, mas não sacia. A informação entra na casa da gente em doses cavalares e nos encontra passivos, a gente apenas seleciona o que nos interessa e despreza o resto, e nem levantamos da cadeira neste processo. Para alimentar a alma, é obrigatório sair de casa. Sair à caça. Perseguir.

Se não há silêncio à sua volta, cace o silêncio onde ele se esconde, pegue uma estradinha de terra batida, visite um sítio, uma cachoeira, ou vá para a beira da praia, o litoral é bonito nesta época, tem uma luz diferente, o mar parece maior, há menos gente.

Cace o afeto, procure quem você gosta de verdade, tire férias de rancores e mágoas, abrace forte, sorria, permita que lhe cacem também.

Cace a liberdade que anda tão rara, liberdade de pensamento, de atitudes, vá ao encontro de tudo que não tem regras, patrulha, horários.

Cace o amanhã, o novo, o que ainda não foi contaminado por críticas, modismos, conceitos, vá atrás do que é surpreendente, o que se expande na sua frente, o que lhe provoca prazer de olhar, sentir, sorver. Entre numa galeria de arte. Vá assistir a um filme de um diretor que não conhece. Olhe para sua cidade com olhos de estrangeiro, como se você fosse um turista. Abra portas. E páginas.

Arroz, feijão, bife, ovo. Isso me mantém de pé, mas não acaba com meu cansaço diante de uma vida que, se eu me descuido, torna-se repetitiva, monótona, entediante. Mas nada de descuido.

Vou me entupir de calorias na alma. Há fartas sugestões no cardápio. Quero engordar no lugar certo. O ritmo dos dias é tão intenso que às vezes a gente esquece de se alimentar direito.

Read Full Post »

Post - EmíliaBazán_A pomba azul

A pomba azul

Emilia Pardo Bazán (espanhola)

Tradução: Herci

Um dia, olhando para o telhado onde se haviam empoleirado algumas pombas, vi uma coisa que me deixou emocionada: uma pomba nova, desconhecida, mas da mesma cor, exatamente da mesma cor de um pedaço do céu. Uma pomba de plumagem turquesa, uma ave que parecia flor, um ser divino. Eu havia dito que a meninice não explica muitas coisas, mas seu instinto é qualidade maravilhosa, ainda mal estudada. Quem me havia ensinado que uma pomba azul não existia na realidade, e que essa cor só podia vir do infinito?

As cores das pombas eram variadíssimas. Havia as verde-metálico, as cinza-pérola, as nacaradas, com tons e cambiantes de cobre…

Mas aquele azul! Aquele era exatamente o matiz de minha alma, era a nota dos meus sonhos, meu próprio ser, impregnado, bailando no fluido das distâncias misteriosas e na onda clara dos imensos mares… E a pomba de plumagem turquesa voejava dentro de mim, e eu supunha que, depois de aparecer-me um instante, ia levantar voo perdendo-se outra vez em seu elemento próprio, a abóbada de turquesa estendida também sobre os prosaicos telhados, justificando o verso popular:

“El cielo de Marineda esta cubierto de azul…”

Com grande surpresa minha, a sobrenatural pomba se confundiu com as vulgares; pôs-se a seguir uma fêmea feiinha, cinza-azulada, e porque atravessou a sua frente um macho cor de canela, deu-lhe uma feroz bicada que lhe arrancou penas tintas de sangue.

A tudo isto a família estava assistindo e, maravilhada pela cor da pomba, planejava sua captura.

Quando vi que iam colocar em uma gaiola a pomba azul, fiquei ardendo de vontade de que fugisse, de que levantasse voo e sumisse, ligeira flor cerúlea, no abismo do firmamento! Porque me parecia um sacrilégio porem-lhe a mão em cima e fiquei com vontade de libertá-la, de abrir seu cárcere, de restituí-la a sua esfera própria.

Com grãos de trigo e pão esmigalhado atraíram a pomba até que entrasse na casa onde, cerrada rapidamente a janela, ficou à mercê dos caçadores. Rapidamente a prenderam e examinaram atentamente suas penas, pétalas de flor estranha, entabulando-se discussão acerca de se aquilo era ou não era natural.

— “Ela foi tingida”, – diziam todos.

Mas entre os criados, espíritos sensíveis, houve alguém que até afirmou ter visto pombas assim, embora muito raras, e sempre proféticas, anunciadoras de grandes acontecimentos. Minhas simpatias estavam absolutamente com os criados (caso muito frequente na infância).

Tingida a pomba? As pombas podem ser tingidas? Como se tingem? Não era mais natural crer que um dos ovinhos preciosos que eu via nos ninhos levava em si, por misteriosa obra de forças desconhecidas, o matiz celeste da plumagem, tão igual, tão puro; aquele azul delicado, celeste, luminoso ao sol?

Havia vinte e quatro horas que a pomba estava na gaiola, sem que me tivesse ocorrido uma só ideia para lhe dar liberdade. – Estava tão alto o gancho e eu era tão pequena… – Foi então que recebemos recado de uns vizinhos que possuíam pombal e reclamavam a devolução de uma pomba branca, tingida com anil na véspera pelos filhos…

Senti a dor, a pontada gelada do desengano. Fiquei triste: meu espírito se encolheu. Tingida, falsa, artificial, a sonhada pomba!…

E por uma das leituras que sobrepujaram meu entendimento de dez anos, e nas quais me concentrava então, soube naquela mesma tarde que – grande lástima! – nem o céu é azul… E me doeram e me sangraram as asas da fantasia, que – essas sim! – eram bem azuis…

(“Manual de Español” – Idel Becker)

*Emilia Pardo Bazán (1851-1921 – Espanha) – escreveu todos os gêneros, num total de quase cinquenta títulos, mas ficou conhecida como contista: durante anos, escrevia uma média de um conto por semana, textos que eram disputados por jornais da Espanha e da América Hispânica. De origem aristocrata, chegou a catedrática de Literatura Comparada da Universidade de Madrid, mas, por ser mulher, não conseguiu entrar na Academia Espanhola.

Read Full Post »

MarthaMedeiros_Caça

Caça

Martha Medeiros – 14/06/2004

Por que é importante ler? Pergunta recorrente em qualquer encontro de escritores com estudantes. E a gente acaba desfiando um rosário de respostas prontas, um blá blá blá repetitivo, apesar de necessário. Mas hoje vou dar um exemplo prático.

Estava lendo uma revista — nem era um livro — quando me deparei com uma entrevista feita com o chef Philippe Legendre, estrela da gastronomia francesa de quem nunca provei um ovo frito. Ignorante sobre quem era o cara, li. Lá pelas tantas, o repórter:

—”É verdade que o senhor adora caçar?”

O chef: — “Eu caço o silêncio. Atiro no barulho.”

Bum!

Perdizes, faisões, coelhos, sei lá o quê o tal homem caça todo final de semana — e nem me interessa. O importante foi o impacto causado por aquelas duas frasezinhas curtas que pareciam um poema e que empurraram meu pensamento para além daquelas páginas, me puseram a pensar sobre minhas próprias perseguições. Caço o silêncio. Atiro no barulho. Eu idem, monsieur.

Eu caço o sossego. Atiro na tevê.

Eu caço afeto. Atiro em gente rude.

Eu caço liberdade. Atiro na patrulha.

Eu caço amigos. Atiro em fantasmas.

Eu caço o amanhã. Atiro no ontem.

Eu caço prazeres. Atiro no tédio.

Eu caço o sono. Atiro no sol.

E quando caço o sol, atiro em relógios.

Acho que é isto que a leitura faz. Nos solta na floresta com uma arma na mão. Nos dá munição para atirar em tudo o que nos distrai de nós mesmos, no que nos desconcentra.

O livro não permite que fiquemos sem nos escutar. A leitura me faz mirar em mim e acertar no que eu nem sabia que também sentia e pensava. E, por outro lado, me ajuda a matar tudo o que pode haver em mim de limitante: preconceitos, ideias fixas, hipocrisias, solenidades, dores cultuadas.

Lendo, eu caço a mim e atiro em mim.

MarthaMedeiros_olivro

Read Full Post »