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Archive for julho \29\UTC 2013

Post Janelas quebradas

George L.Kelling e Catherine Coles

Teoria das janelas partidas (Fixing Broken Windows)*

… Se o vidro de uma janela de um edifício é quebrado e ninguém o troca,muito rapidamente estarão quebrados todos os demais.

Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito…

Em 1969, na Universidade de Stanford (EUA), o professor Phillip Zimbardo realizou uma experiência de psicologia social. Deixou dois carros abandonados na via pública, dois veículos idênticos, da mesma marca, modelo e cor. Um ficou em Bronx, uma zona pobre e conflituosa de Nova York, outro em Palo Alto, uma zona rica e tranquila da Califórnia. Dois carros idênticos abandonados, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.

Resultou que o carro abandonado em Bronx começou a ser vandalizado em poucas horas. Perdeu as rodas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Já o carro abandonado em Palo Alto se manteve intacto.

É comum atribuir à pobreza as causas de delito, atribuição em que coincidem as posições ideológicas mais conservadoras (da direita e da esquerda). Contudo, a experiência em questão não terminou aí.

Quando o carro abandonado em Bronx já estava destruído e o de Palo Alto impecável, os investigadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto. O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o do Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo do bairro rico ao  mesmo estado que o do bairro pobre.

Por quê o vidro quebrado, no carro abandonado num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso?

Não se trata de pobreza. Evidentemente é algo que tem a ver com a psicologia humana e com as relações sociais. Um vidro partido num carro abandonado transmite a ideia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação, que vai quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras, em que vale tudo. Cada novo ataque que o carro sofre reafirma e multiplica essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Em experiências posteriores, James Q. Wilson e George Kelling desenvolveram a “Teoria das Janelas Quebradas”, a mesma que de um ponto de vista criminalístico conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido,  a sujeira, a desordem são maiores. Se o vidro de uma janela de um edifício é quebrado e ninguém o troca, muito rapidamente estarão quebrados todos os demais.

Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.

Se se cometem “pequenas faltas” (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar um sinal vermelho) e isso não gera punição, então começam as faltas maiores e logo delitos cada vez mais graves.

Se se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças  o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando chegarem à idade adulta.

Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas (que deixa de sair das suas casas por temor à criminalidade), são progressivamente ocupados pelos delinquentes.

A teoria das janelas quebradas foi aplicada pela primeira vez em meados da
década de 80 no metrô de Nova York, que se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: pichações deteriorando o lugar, sujeira das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados foram evidentes. Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Mais tarde, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na teoria das janelas quebradas e na experiência do metrô impulsionou a política de ‘tolerância zero’. A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à lei e às normas de convivência urbana. O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A expressão ‘tolerância zero’ soa como uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas seu conceito principal é a prevenção e promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o delinquente, nem de estimular a prepotência da polícia. De fato, aos abusos das autoridades deve também aplicar-se a tolerância zero. Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.

Essa é uma teoria interessante e pode ser comprovada em nossa vida diária, seja em nosso bairro, na vila ou condomínio onde vivemos, não só em cidades grandes. A tolerância zero colocou Nova York na lista das cidades seguras.

Esta teoria pode também explicar o que acontece aqui no Brasil com corrupção,  impunidade, amoralidade, criminalidade, vandalismo, etc.

Pense nisso!

*In: Fixing Broken Windows: Restoring Order and Reducing Crime in Our Communities de George L. Kelling e Catherine Coles é um livro de criminologia e sociologiaourbana publicado em 1996, sobre crime e estratégias para contê-lo  ou eliminá-lo  dos ambientes urbanos.

Frase texto_Brasil

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Post_MarcosRolim_Sereia

A sereia e os bêbados

Marcos Rolim – 08/97

Há um poema de Neruda que trata de uma fábula, a “Fábula da Sereia e dos Bêbados”. Diz o poema que todos os senhores estavam lá dentro quando ela entrou completamente nua. Eles tinham bebido e começaram a cuspir nela. Ela não entendia nada; acabava de sair do rio.

Era uma sereia que havia se extraviado. Os insultos corriam sobre sua carne lisa e a imundície cobriu seus peitos de ouro. Ela não sabia chorar, por isso não chorava; não sabia se vestir, por isso não se vestia. Tatuaram-na, então, com cigarros e com rolhas queimadas e riram até cair no chão da taberna.

Ela não falava porque não sabia falar. Seus olhos eram da cor de amor distante, seus braços construídos de topázios gêmeos, seus lábios se cortaram na luz do coral.

E, de repente, a sereia saiu pela porta. Mal entrou no rio ficou limpa, reluziu como uma pedra branca na chuva e, sem olhar para trás, nadou de novo. Nadou até nunca mais. Nadou até morrer.

Talvez, algum dia, tenhamos todos sido aquela sereia.

Quando crianças, não entendíamos nada e vivíamos imersos nas coisas simples e urgentes. Talvez o que chamamos “educação” tenha sido um longo percurso cheio de marcas na pele. Extraviados nesse mundo, nos pusemos a nadar e, quando “morremos”, nos tornamos adultos.

À nossa volta há uma “taberna” que recebemos de herança. Acostumamos-nos com ela a ponto de alguns entre nós imaginarem que ela seja o único mundo possível. Então, já não sonhamos: calculamos.

Então, já não nos preocupa a verdade, mas a versão. E ficamos complexos e misteriosos como polvos. E alimentamos rancores e espetamos como ouriços. Alguns entre nós têm o talhe das algas e seguem com as marés; outros, são peixes fosfóricos e iluminam.

A metáfora marinha me permite dizer que todos nós, diversos, estranhos, únicos, pertencemos a um mesmo mar e que bem no fundo de cada um habita a lembrança de uma sereia como a da fábula.

Uma sereia que nos fala da urgência e que nos segreda coisas simples como a justiça, a verdade, o amor ou a coragem. Algo inexplicável que os kantianos¹ poderiam chamar de “a lei moral dentro de nós”, fundamento de nossa própria condição de seres livres que fazem opções e que são por ela responsáveis.

Nosso mundo, parece claro, é cada vez mais inóspito aos que agem de acordo com o dever. Em larga medida, a ação moral passa a ser vista como um tributo à ingenuidade. A ideia de que devemos subordinar nossos próprios interesses à afirmação de interesses generalizáveis; a noção de que nosso próprio bem estar não pode ser alcançado nem mantido às custas do sofrimento ou da privação de quem quer que seja; a exigência por honestidade, equidade ou por posturas solidárias são, às vezes, explicitamente, consideradas “infantis” e ridicularizadas.

Ao final desse século, não seria demais insistir no ponto de vista contrário. Somos incontornavelmente adultos, é certo, mas nada nos obriga a pactuar com os fregueses daquela taberna.

¹ kantiano: relativo ao filósofo alemão Immanuel Kant ou à sua doutrina; (Aquele) que adere às ideias de Kant ou se identifica com sua doutrina moral; Que adere a moral como lei universal, Moralista;

A rigidez de seus pais, fez dele um moralista ao extremo, austero e de padrões tradicionais, transformou-se num legítimo kantiano.

[Dicionário informal]

Fim de texto_Immanuel Kant

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Post_LuizMaia_BancoCarona

No banco do carona

Luiz Maia*

Às vezes sou levado pelas mãos da nostalgia para viver momentos especiais. Nesse instante coloco as lembranças no banco do carona e sigo viagem. Só agora começo a olhar de forma mais amorosa para a história de minha família, isso há pouco mais de seis meses.

Confesso que somente hoje percebo com mais clareza a necessidade que temos de se prestar mais atenção em nossos pais, irmãos, irmãs, tios e avós. Saber como estão, onde moram, o que sentem e o que fazem.

Após ter vivenciado algumas experiências amargas é que passei a lembrar com saudade da convivência que tive e tenho com minha avó paterna, irmãos, mãe, pai, tias e tios queridos.

De todos eu soube extrair lições de bondade e sabedoria, pois tinham muito a nos ensinar. Como eu queria estar agora ao lado deles a conversar na varanda de casa. Mas há que se compreender que nem sempre o melhor caminho é mais aconselhável para seguirmos viagem. Às vezes é preciso conhecer a dor para dar valor ao que já foi tangível um dia.

Vou pensando enquanto escrevo e nem percebo que sem querer remexo na parte mais delicada de meu ser, mas não posso deixar de expressar um tempo que passou, mas que deixou saudade. Os momentos mais delicados são as datas comemorativas. Aí não tem como não pensar nos que partiram para nos aguardar adiante.

No meu recente aniversário eu voltei no tempo e me vi de calças curtas defronte de um bolo de chocolate. Viajei e vi a sala cheia, muitos parentes felizes a festejar meus sete, oito, nove anos de idade. Hoje tudo parece longe demais.

Por onde andam meus tios, primas, meu pai e irmãos que não os vejo mais?

Por que me presenteiam com suas ausências, se ao menos não me foi dado o poder de esquecer? Hoje eu os trago comigo no banco do carona.

Grande é a alma das pessoas que enxergam a beleza que há nas entrelinhas de um sentimento por mais simples que seja, mesmo que tenha sido vivido num momento de muita saudade por pessoas que eventualmente tenham nos deixado para trás, como as estrelas errantes que sem nos avisar deixam de repente de brilhar.

 
*Luiz Maia: www.luizmaia.blog.br
É Autor dos livros “Veredas de uma vida”, “Sem limites para amar”, “Cânticos”, “À flor da pele” e “Tamarineira – Natureza e Cidadania. Recife-PE.
 
(sugestão de Vera Mussi)
 
 

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Post _Leonardo Boff_Voar

VOAR

Leonardo Boff

Passamos uma vida presos
Qual pássaros em suas gaiolas!
Medo de amar!
Medo de olhar a vida de frente!
E naquele pequeno espaço,
Cantamos nossas dores e sonhos!
Muitas vezes se abrem
As portas de nossas gaiolas
Mas permanecemos ali
Acostumados…
Encolhidos…
Nas nossas vontades e sonhos!

Não tenhamos dúvidas!
À primeira oportunidade
Devemos alçar
O voo dos falcões!
Calmo
Confiante
Determinado.

Amar sem medo!
Brincar um pouco com a vida!
Não ter medo dos rochedos!

E sobre eles
Estender nossas asas
Corajosas de falcões!
E sair em busca
De nossos sonhos!

Como o Condor…
Tentar enxergar
As pequeninas coisas à nossa volta
E saber apreciá-las!
Dando um sentido novo
À nossa vida!

Não sermos como pássaros de gaiolas,
Mas, Falcões e Condores do céu!

A cada dia existe
Uma renovação constante
E nunca um dia
Será como o outro…

Não há dores eternas!
Não há lágrimas eternas!
Não há perdas eternas!
Há sorrisos esperando-nos…

Dias de sol
O abraço dos amigos, dos filhos.
E tantos sonhos lindos!
Um amor nos espera
Para voar… voar… voar…

Porque a vida
É um recomeçar diário
De um voo!

E gaiolas
não foram feitas
Para pássaros
Tampouco para Falcões!

 Chaplin_a_vida

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