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Archive for fevereiro \26\UTC 2014

Post_Adriane_Cirelli_Os_balões

Os balões

Adriane Albuquerque Cirelli*

Conta a lenda que um grupo de crianças diante de várias bexigas coloridas discutia qual delas subiria mais rapidamente pelo céu. Depois de muitos argumen­tos, a criançada procura o velho sábio do local que após ouvir os questionamentos dos pequenos explicita seu saber:

“O que faz a diferença é o gás do interior dos balões, não a cor”.

Pensar nas palavras do sábio enriquece nosso viver. A cor é vista. O gás é invisível. A cor é aparência. O gás é interior. A cor que “esconde” o gás pouco importa.

Nós, humanos, muitas vezes agimos como o grupo de crianças. Teorias, es­tratégias, atitudes, saberes, dados estatísticos, comportamentos. Passamos anos e anos pensando nas cores das bexigas que encontramos pela vida afora.

Olhamos o comportamento e poucas vezes perguntamos o que leva a pessoa a executá-lo.

Observamos a aparência e revidamos quase que por impulso. Não temos tempo de olhar para a essência e quando a olhamos não enxergamos além da cor. Somos adeptos ao “diga logo” e não ao diálogo!

Muito se preocupa hoje com a alimentação, a estética, exercícios. É preciso ser saudável a todo custo. Pena que essa mesma preocupação nem sempre nos acompanha quando o assunto é o ser humano, a dignidade, a ética, a fé.

O tempo nos acostumou com a realidade de que o ser humano precisa ser humanizado. O nascimento garante a nossa pertença à raça humana por isso so­mos registrados e ganhamos um nome, porém, se seremos humanos, o tempo e a educação que recebemos dirão.

Estranho, não! As pessoas precisam se humanizar. Respeito, ética, solidarie­dade não são desenvolvidos em todos os seres.

Por que é tão difícil encontrar um interior bonito? Por que com frequência ouvimos a expressão “é ótimo profissional, mas como ser humano é uma lástima”. Competência não deveria ser traço do humano também? Formação não deveria trabalhar o pessoal?

Nenhum extremo é benéfico. O exterior também merece cuidados especí­ficos. Somente pensar no gás e desprezar as cores das bexigas empobrece nosso visual. Afinal, ninguém discute que balões coloridos são marcas fundamentais de uma alegre festa infantil. Se não fossem as cores, as crianças não teriam se apro­ximado do sábio.

Viver para o interior e não se vestir adequadamente para o trabalho pode in­viabilizar um profissional. Comparecer de biquíni a uma festa de casamento, com certeza, entristecerá os anfitriões. Um interior precioso merece ter uma “casca” cuidada e higienizada.

Coloquemos nossa mente em uma academia, nossa espiritualidade em um rígido controle nutricional e nossa sensibilidade à luz do sol para ser iluminada, só assim seremos balões felizes e coloridos subindo aos céus!

 Frase texto_Henry Ford
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Post_MMedeiros_Conexao_perdida

A conexão perdida

Martha Medeiros

Para se estressar, hoje, não é preciso muito. Basta que a pessoa se hospede numa pousada que não tenha wi-fi, ou que haja uma queda de energia que deixe seu computador paralisado: que desespero ficar sem o Instagram, o Face, o Twitter, o YouTube, o Google.

É chato, eu sei. Mas há uma conexão muito mais séria que está sendo perdida sem que ninguém se importe: a conexão entre causa e consequência, que exige apenas o bom funcionamento dos fios que interligam os neurônios.

Quem viu as imagens do rojão que atingiu o cinegrafista Santiago Andrade durante um protesto no Rio reparou que ele não estava cercado por muita gente, havia um clarão ao seu redor, o que resultou num comentário paralelo à comoção geral: alguns consideraram a tragédia um azarão. Não era para acertar ninguém, foi uma fatalidade.

Que azar, o quê. Não foi azar de quem soltou o artefato, nem azar de quem estava no caminho. Não houve azar ou sorte. Houve, mais uma vez, a falta absoluta de conexão entre causa e consequência, uma relação lógica que entrou em desuso.

Quem lida com material explosivo no meio da rua (ou dentro de um estádio, como aconteceu no ano passado num jogo do Corinthians, na Bolívia) tem que estar ciente de que pode ferir e até matar outros. Quem dirige feito um insano na estrada tem que ter noção de que pode provocar um acidente fatal. Quem depreda um ônibus tem que lembrar que aquele é o mesmo ônibus que o levaria ao emprego no dia seguinte.

Quem se descontrola com gastos estapafúrdios tem que responder pela falta de verba para o essencial. Quem pensa que está fazendo economia ao usar material de baixa qualidade em obras de infraestrutura tem que considerar que poderá haver danos, atrasos e acidentes de trabalho. Quem se envolve com corrupção tem que saber que é um ladrão como qualquer outro, não importa se usa gravata e tem curso superior.

Quem não atende com eficiência vê sumir a freguesia. Quem solta boatos obstrui a comunicação. Quem mente perde a credibilidade. Quem não investe não avança. Quem só cultiva aliados em vez de amigos fica sozinho. Quem não lê não pensa direito. Quem não pergunta tateia na ignorância. Quem mima em vez de educar lega ao mundo seres prepotentes. Quem não entendeu que gentileza gera gentileza acabará sentindo na pele que grosseria gera grosseria.

Mas, em vez de manter conectada essa corrente óbvia entre causa e consequência, o que vemos são políticos governando o hoje como se não houvesse amanhã, manifestantes confundindo consciência com delinquência, motoristas desrespeitando as leis para chegar antes, homens e mulheres procurando resolver seus problemas com imediatismo, sem levar em conta as necessidades e sentimentos dos outros.

Belo Horizonte, fevereiro/2014

Conectar-se com os próprios pensamentos e emoções é exercício dos mais produtivos. É quando a gente, em silêncio, encontra as respostas para nossas inquietações e descobre os melhores caminhos para atingir nossos objetivos.

Martha Medeiros

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Post_J_Bicca_Larré_Nuvem

Aquela nuvem

Crônica | J. Bicca Larré*

Gosto do cambiante das nuvens. Gosto de sua inconstância, de seu caráter volúvel e, ainda assim, confiável. Observo-as com esse vagar que é delas: lento e desocupado. Elas são lânguidas e baldias.

Às vezes tiro pedaços do meu tempo para olhá-las melhor. São assim como nos aparecem. Brancas umas, os “cirrus”, promissoras de bom tempo, límpidos flocos do algodão celeste. Outras, os “nimbos”, são cinzentas, e se desfazem em água. E as há trevosas: os “cúmulos-nimbos” das tempestades.

As nuvens são como a vida, em seus momentos alternados de alegrias e tristezas, de bonanças e de percalços.

Nos claros dias de céu azul e sol resplandecente, as nuvens são oníricas e mágicas. Deslizam céu afora com alvura de neve e leveza de bailarinas.

Nuvens brancas enfeitam a alegria das crianças, o triste sorriso dos velhos e o sonho dos poetas. E convidam os taciturnos à magia de viver.

Num dia destes, uma nuvem assim passou sobre mim, numa iluminura de vida. E se me dourou a fronte envelhecida. Quem sabe, a última deste longo tempo que já dura tanto. E me deixou uma luz imensa, ofuscando-me a visão embaçada pelas cataratas do desencanto. Foi a dádiva de uma nova chama. Um convite à vida, mesmo que ela já esteja mofina, tediosa e enfastiada. Um chamamento à beleza da existência e à alegria de vivê-la. Um novo alento de crença nos nossos semelhantes. Uma nova certeza de que o bem é imensamente maior e mais consistente do que o mal que, por vezes, respinga sobre a gente.

Há pouco, alguém me enviou um despropositado, maldoso e gratuito e-mail que me aborreceu bastante. Não pelo conteúdo que negava totalmente qualquer contributo meu à cultura e à sociedade em que vivo. Mas pela agressividade e a desumanidade do propósito. Fiquei triste de ver que gente assim, de índole tão má, ainda existe.

Dias depois, recebi o honroso título de “Cidadão Benemérito de Santa Maria”. E, em seguida, em sequência, enormes e inequívocas manifestações de solidariedade, de fraternidade, de amizade e de estímulos, como a me mostrarem que a maldade, como aquelas nuvens negras, é passageira, embora deixe sobre nós, e por onde passa, um rastro de destruição e muito de desencanto.

Mas a toda tormenta sempre sobrevém a bonança. E, afinal, voltaram dias como essas nuvens brancas que, por vezes, pairam no céu da nossa vida.

14/08/2010 | N° 2579 – Diário de Santa Maria

*O jornalista e escritor José Bicca Larré nasceu em Alegrete/RS em 1929 e reside em Santa Maria/RS desde os anos sessenta, onde é funcionário público federal, aposentado do Tribunal Regional do Trabalho.

Nasci no Alegrete. Pela graça de Deus.” Que enormes e indissolúveis forças telúricas têm o Alegrete! Quem nasceu ou viveu lá, não deslembra nunca do lugar que fica entranhado na gente, como se fosse nossa patriazinha única e verdadeira. “O alegretense ostenta como uma condecoração preciosa o seu gentílico.” (J. Bicca Larré)

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