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Archive for setembro \20\UTC 2014

Post_E_Galeano_Direito_Delirio

O direito ao delírio

Eduardo Galeano*

(…) Embora não possamos prever o tempo nós temos, pelo menos, o direito de imaginar o que nós queremos. Em 1948 e em 1976, as Nações Unidas proclamaram extensas listas de direitos humanos; mas a grande maioria da humanidade não tem mais do que o direito de ver, ouvir e calar. Que tal se começássemos a pensar no nunca proclamado direito de sonhar? Que tal se delirássemos um pouquinho? Vamos definir nossa visão para além das abominações de hoje para adivinhar outro mundo possível:

– O ar estará limpo de todos os venenos que decorram dos medos e das paixões humanas;

– Nas ruas, os carros serão esmagados pelos cães;

– As pessoas não serão conduzidas por um automóvel, ou programadas por um computador, ou compradas pelo supermercado, nem vistas pela televisão;

– A TV deixará de ser o membro mais importante da família e será tratada como o ferro de passar ou a máquina de lavar roupa;

– As pessoas trabalharão para viver em lugar de viverem para trabalhar;

– Será incorporado no código penal o crime de estupidez para aqueles que vivem somente para ter ou para ganhar, em vez de viver, simplesmente, por viver como canta o pássaro sem saber que canta e brinca uma criança sem saber que brinca;

– Em nenhum país serão presos os meninos que se recusarem a cumprir o serviço militar, senão os que querem cumpri-lo;

– Os economistas não chamarão padrão de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida a quantidade de coisas;

– Os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostem de ser fervidas vivas;

– Os historiadores não acreditarão que os países gostem de ser invadidos;

– Os políticos não acreditarão que os pobres gostem de comer promessas;

– A falsidade deixará de ser uma virtude e ninguém levará a sério alguém que seja capaz de enganar uma pessoa;

– A morte e o dinheiro perderão seus poderes mágicos, e nem o falecimento e nem a fortuna converterá um desonesto em um virtuoso;

– Ninguém será considerado um herói ou um tolo por fazer o que ele acredita que é certo em vez de fazer o que lhe é mais conveniente;

– O mundo já não estará mais em guerra com os pobres, mas com a pobreza, e a indústria militar não terá escolha a não ser a de declarar-se em falência;

– A comida não será uma mercadoria, nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos;

– Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão;

– As crianças de rua não serão tratadas como lixo, porque não haverá meninos de rua;

– As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos;

– A educação não será privilégio daqueles que podem pagá-la;

– A polícia não será a maldição de quem não pode comprá-la;

– A justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viverem separadas, voltarão a se unirem, muito de perto, costas com costas;

– Uma mulher negra será presidente do Brasil e outra mulher negra será presidente dos Estados Unidos da América; uma mulher indiana governará a Guatemala e outra o Peru;

– Na Argentina, as loucas da Praça de Mayo serão um exemplo de saúde mental, porque se negarão a esquecer os tempos de amnésia obrigatória;

– A Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés, e o sexto mandamento ordenará festejar o corpo;

– A Igreja também ditará outro mandamento, o qual se esqueceu Deus: “Amarás a natureza de que fazes parte “;

– Serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma;

– Os desiludidos serão bem vindos e os abandonados serão encontrados, porque foram aqueles que perderam a esperança de tanto esperar e os que ficaram abandonados de tanto procurar;

– Seremos compatriotas e conterrâneos de todos aqueles que têm vontade de justiça e de beleza, que nasceram onde nasceram e viveram onde viveram, sem ter importância as fronteiras do mapa e do tempo;

– A perfeição continuará a ser o tedioso privilégio dos deuses; mas neste mundo torpe e decadente cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.

*Eduardo Hughes Galeano, nascido em Montevidéu, é jornalista e escritor. Autor de muitos livros que mesclam ficção, jornalismo, análise política e histórica.

Eduardo Galeano_Utopia

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Sobre a morte e o morrer

Rubem Alves

O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?

Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? (…) O diabo é deixar de viver.” A vida é tão boa! Não quero ir embora…

Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Cecília Meireles sentia algo parecido: “E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega… O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias… Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto…”

Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. “Minha filha, sei que minha hora está chegando… Mas, que pena! A vida é tão boa…”

Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.

Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”.

Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que frequentemente se dá o nome de ética.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.

Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a “reverência pela vida” é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os zigue-zagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?

Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.

Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da “reverência pela vida”. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me”.

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei…”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a “morienterapia”, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a “Pietà” de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.

Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12-10-03. fls 3.

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