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Archive for the ‘Albert Godefroid – Meu pai – uma homenagem’ Category

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Meu pai… se vivo, faria hoje 100 anos

(uma homenagem)

(Michèle Christine)

Meu pai foi um “barão”… não por título nobiliárquico — não — mas as pessoas que o conheciam o achavam assim, penso que pela sua aparência imponente, era bonito, mostrava nobreza física e de caráter. Ou pela origem germânica da palavra barão que significa “homem livre”. Tinha uns olhos azuis transparentes que ofuscavam quando olhava com penetração fazendo-nos abaixar o olhar como se procurássemos, com isto, num gesto monárquico, lhe fazer uma reverência… foi um “barão”. Eu diria mais: que lhe caberiam as palavras de Pablo Neruda quando, em 1945, saldou o Barão de Itararé: “(…) un grande entre los grandes, con respeto le saluda de pie el poeta de los Andes:Neruda.”

Do meu pai, eu também sinto júbilo… assim.

Meu pai foi um trabalhador, um honrado trabalhador. Veio do lado de lá do Atlântico para o Brasil trazendo na bagagem muita energia, disposição e conhecimento. Aqui se instalou e com o fruto do seu trabalho criou a família. Como filhos aprendemos o respeito, a delicadeza, a obediência, a disciplina, a honestidade e o grande amor pela vida. Em nossa mesa não havia falsas ilusões e sim a simplicidade e a nobreza de caráter.

E eu conservei este aprendizado.

Meu pai gostava de viajar, sobretudo de rever sua família que deixou lá no Velho Mundo. Com meu pai também conheci o Velho Mundo, venci a minha infância e enfrentei as “intempéries” da adolescência, comemorei muitos aniversários e comi muitas castanhas de natal. O Pai-Noel foi a minha verdade até os oito anos de idade.

E eu sou grata por isto.

Meu pai era um bom fotógrafo particular, deixou os momentos da minha vida muito bem registrados, aqueles que eu não poderia me lembrar sozinha. Ele dançou minha valsa de formatura e comprou o meu primeiro perfume. O primeiro “soutien” ele me presenteou lá no colégio onde estudei  interna. Cresci. Avancei. Evoluí.

Eu sou feliz com isto.

Meu pai gostava de cantar. Se as pedras lá da Rua São José, no Ouro Preto das Gerais falassem, confirmariam os aplausos que recebia dos passantes quando soltava a voz muito afinada ao cantar “Santa Lucia”, acompanhando o piano da antiga casa da Farmácia Central.

Eu era pequenina e fazia festa também.

Meu pai “non gostava de barrrrulho de crrrriança”, jamais conseguiu falar o português corretamente a não ser com um sotaque fortemente carregado da sua língua-mãe, o luxemburguês. Também trocava as palavras o que provocada nossas sonoras gargalhadas.

Até hoje eu as ouço.

Meu pai foi um bom “gourmand”, gostava da “bonne cuisine”, de um bom vinho, de um “apéritif de France”.

Somos a cópia deste gosto, eu e meu irmão Leonardo.

Meu pai foi um bom caminhador, ia e voltava para o trabalho a pé e sempre recusava as caronas que por ventura o convidavam a “andar de carro”. Gostava da natureza, adorava ver a chuva cair e o cheiro da terra molhada. Sentir o vento fresco das noites de verão lhe provocava um “Hummmm…” prolongado de satisfação.

Deixou a admiração pela natureza comigo.

Meu pai plantou sementes em todos os canteiros: pequenina, eu comia flores e ganhei muitos tapas na mão por fazê-lo. Hoje não como flores, mas tenho veneração por elas que continuam enfeitando a minha vida. Roí unhas, o meu pai colocou mostarda nos dedos para que eu não as comesse. Continuei, porque adorei a mostarda. O meu amor pela poesia nasceu, quem sabe, deste ‘velho guerreiro’ que transformou a “Canção do Exílio” em ladainha de todos os dias e eu jamais me esqueci que “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá….”, pois ele não se cansava de declamá-la. Aos quinze anos ensinou-me que eu deveria  ser meu próprio advogado de defesa e de acusação pela vida afora. Foi assim que aprendi o perdão, o recuo, a vitória, a derrota, o equilíbrio. Este foi o meu grande professor, o meu pai.

Meu pai foi muito bonito e vaidoso. Permanece na minha memória e nas fotos espalhadas pela casa tal qual partiu, como tal qual era quando jovem. Permanece nos exemplos, nas recordações, na saudade e muito profundamente nas raízes do meu viver e no meu coração.

Hoje, 05 de fevereiro de 2010 faria 100 (cem) anos.
Esteja onde estiver, meu pai, nosso beijo,
Michèle Christine
Bouquet de Cravos & Conchavos
Músicas escolhidas para esta homenagem:

  • Emoções (Eduardo Lages e orquestra),  porque é grande a nossa emoção.
  • Santa Lucia (cantada por Mário Lanza, tenor americano que interpretou Enrico Caruso no cinema), porque o meu pai a cantava também muito bem.
  • In München steht ein Hofbräuhaus (com Will Glahé e orquestra, acordeonista alemão), porque o meu pai gostava das polkas da cerveja.
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