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Archive for the ‘Emília Pardo Bazán – A pomba azul’ Category

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A pomba azul

Emilia Pardo Bazán (espanhola)

Tradução: Herci

Um dia, olhando para o telhado onde se haviam empoleirado algumas pombas, vi uma coisa que me deixou emocionada: uma pomba nova, desconhecida, mas da mesma cor, exatamente da mesma cor de um pedaço do céu. Uma pomba de plumagem turquesa, uma ave que parecia flor, um ser divino. Eu havia dito que a meninice não explica muitas coisas, mas seu instinto é qualidade maravilhosa, ainda mal estudada. Quem me havia ensinado que uma pomba azul não existia na realidade, e que essa cor só podia vir do infinito?

As cores das pombas eram variadíssimas. Havia as verde-metálico, as cinza-pérola, as nacaradas, com tons e cambiantes de cobre…

Mas aquele azul! Aquele era exatamente o matiz de minha alma, era a nota dos meus sonhos, meu próprio ser, impregnado, bailando no fluido das distâncias misteriosas e na onda clara dos imensos mares… E a pomba de plumagem turquesa voejava dentro de mim, e eu supunha que, depois de aparecer-me um instante, ia levantar voo perdendo-se outra vez em seu elemento próprio, a abóbada de turquesa estendida também sobre os prosaicos telhados, justificando o verso popular:

“El cielo de Marineda esta cubierto de azul…”

Com grande surpresa minha, a sobrenatural pomba se confundiu com as vulgares; pôs-se a seguir uma fêmea feiinha, cinza-azulada, e porque atravessou a sua frente um macho cor de canela, deu-lhe uma feroz bicada que lhe arrancou penas tintas de sangue.

A tudo isto a família estava assistindo e, maravilhada pela cor da pomba, planejava sua captura.

Quando vi que iam colocar em uma gaiola a pomba azul, fiquei ardendo de vontade de que fugisse, de que levantasse voo e sumisse, ligeira flor cerúlea, no abismo do firmamento! Porque me parecia um sacrilégio porem-lhe a mão em cima e fiquei com vontade de libertá-la, de abrir seu cárcere, de restituí-la a sua esfera própria.

Com grãos de trigo e pão esmigalhado atraíram a pomba até que entrasse na casa onde, cerrada rapidamente a janela, ficou à mercê dos caçadores. Rapidamente a prenderam e examinaram atentamente suas penas, pétalas de flor estranha, entabulando-se discussão acerca de se aquilo era ou não era natural.

— “Ela foi tingida”, – diziam todos.

Mas entre os criados, espíritos sensíveis, houve alguém que até afirmou ter visto pombas assim, embora muito raras, e sempre proféticas, anunciadoras de grandes acontecimentos. Minhas simpatias estavam absolutamente com os criados (caso muito frequente na infância).

Tingida a pomba? As pombas podem ser tingidas? Como se tingem? Não era mais natural crer que um dos ovinhos preciosos que eu via nos ninhos levava em si, por misteriosa obra de forças desconhecidas, o matiz celeste da plumagem, tão igual, tão puro; aquele azul delicado, celeste, luminoso ao sol?

Havia vinte e quatro horas que a pomba estava na gaiola, sem que me tivesse ocorrido uma só ideia para lhe dar liberdade. – Estava tão alto o gancho e eu era tão pequena… – Foi então que recebemos recado de uns vizinhos que possuíam pombal e reclamavam a devolução de uma pomba branca, tingida com anil na véspera pelos filhos…

Senti a dor, a pontada gelada do desengano. Fiquei triste: meu espírito se encolheu. Tingida, falsa, artificial, a sonhada pomba!…

E por uma das leituras que sobrepujaram meu entendimento de dez anos, e nas quais me concentrava então, soube naquela mesma tarde que – grande lástima! – nem o céu é azul… E me doeram e me sangraram as asas da fantasia, que – essas sim! – eram bem azuis…

(“Manual de Español” – Idel Becker)

*Emilia Pardo Bazán (1851-1921 – Espanha) – escreveu todos os gêneros, num total de quase cinquenta títulos, mas ficou conhecida como contista: durante anos, escrevia uma média de um conto por semana, textos que eram disputados por jornais da Espanha e da América Hispânica. De origem aristocrata, chegou a catedrática de Literatura Comparada da Universidade de Madrid, mas, por ser mulher, não conseguiu entrar na Academia Espanhola.

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