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Archive for the ‘Fernando Peixoto – O Evangelho segundo o poeta’ Category

Fernando Peixoto – (24/2/2004 – 11:53:26-antevéspera do Natal de 2004 – 23:00:00)

De ti pouco mais sei do que o que li
E apenas pelo que outros me disseram
Mas nunca te escutei, sequer te vi
Nos livros que os antigos escreveram.

E de tudo o que retive e que aprendi
Recordo alguns prodígios que fizeste.
Mas depois, reflectindo, concluí:
Quem foste afinal, Tu? E o que disseste?

Nenhum dos escritores te conheceu,
Nenhum deles jamais te acompanhou.
Nem ao certo se sabe onde nasceu
O Jesus que até hoje a nós chegou.

Por isso é que aprendi a duvidar
E daquilo que li pouco me importa.
Duvidando aprendi a acreditar
Porque ter Fé, sem dúvida, é Fé morta.

Que fizeste, tu, Amigo? Francamente!
Como pudeste cair em tanta asneira?
Tu, que tiveste o mundo à tua frente
E o deixaste cair desta maneira?

Tu, que divino sempre te julgaste
E como filho de Deus te assumiste,
Tu, que a própria família abandonaste
E os míseros aos ricos preferiste,

Que surgiste, já homem, sem sabermos
Que fizeste na tua adolescência,
Que caminhos tomaste, sem te vermos,
Onde colheste tu tanta ciência?

Depois permaneceste errando, incerto,
Meditando em contínua oração,
Preparando, sozinho, no deserto
O caminho da tua pregação.

Partiste rumo ao mar para pescar
Com redes de palavras pescadores
Acolheste-os a todos, sem cuidar
Em separar os bons dos pecadores.

Quem eras Tu, que assim se aventurava
Em abalar um mundo instituído?
Quem eras tu, Jesus, que assim falava
De um Novo Deus de amor, desconhecido?

Quem eras tu, surgido de repente
Um pobre, natural de Nazaret,
Acompanhado assim, por tanta gente,
Pregando às multidões a nova Fé?

Que o Velho Testamento transformaste
Num novo Deus, sem fúria nem vingança,
Um novo Deus de Amor, que proclamaste,
Num Novo Testamento de esperança,

Tu, que amaste as crianças com ternura,
Como eternos símbolos de pureza,
Que trilhaste os caminhos da ventura
E foste dos humanos frágil presa,

Que a fome por milagre mitigaste
Em pão que se espalhou com abundância,
Que mesmo aos inimigos abraçaste
Com idêntico amor e tolerância,

Que à mulher conferiste a dignidade
Tornando-a tua amiga e tua irmã,
Pois do seu ventre emerge a humanidade
Que faz de cada parto uma manhã,

Que morreste sozinho, abandonado
Pelo povo que foi o teu algoz,
Exangue e por espinhos cravejado
Suportando na cruz a dor atroz

Questionaste o Pai sobre a razão
De ter-te abandonado nesse instante.
E qual foi a resposta? Um trovão,
Apenas um trovão no céu distante.

Disseram que depois ressuscitaste!
Embora já de forma não terrena,
E que aos olhos daquela a quem amaste
Te mostraste primeiro: Madalena.

Mas não creio que tal seja verdade.
E tudo não passou duma visão
Daquela, para quem a realidade
Eras Tu, inda vivo: uma ilusão.

Eras tu, Jesus, o Deus que amava,
Eras tu, Jesus, a flor eterna,
A pétala da flor que não murchava
No amoroso jardim de Madalena.

E por isso te via a todo o instante
E nunca se sentia em solidão
Porque tinha guardado o seu amante
No cofre mais secreto da paixão.

Para mim nunca foste a divindade,
Aquela que não passa dum conceito,
Foste um Homem apenas, na verdade,
Foste um Homem, apenas, mas PERFEITO.

E se hoje creio em ti desta maneira
Acredita: não é por má vontade.
É por não ver a Humanidade inteira
Seguir o teu exemplo de bondade.

Morreste torturado numa cruz
Às mãos dos que querias libertar.
Mas p’ra mim tu és sempre esse Jesus
Que eu tanto gostaria de imitar!

Mas tão débil eu sou que não consigo
Ultrapassar os vícios que consomem
O difícil caminho que prossigo
À procura de ti, p’ra ser um Homem.

Por isso sinto a dor tão pertinaz
De tão perto estar de ti e tão distante,
sentir-me cada vez mais incapaz
de ser igual a ti, ou semelhante.

A minha cruz é de outra natureza
E nada tem em si de misticismo:
É a pesada cruz desta fraqueza
De não poder vencer o meu egoísmo.

E só pensando em ti me tornarei
Capaz de resistir e ser mais forte
Vencendo este percurso que encetei
No dia em que nasci até à morte.

Porque a Vida, Jesus, é mesmo assim,
Um rumo que se traça e se percorre,
Que tem sempre um começo e tem um fim:
Se tudo nasce e vive, tudo morre.

E se de nada mais tenho a certeza,
Pretendo ter ao menos a ambição
De estar conforme a minha natureza
Desta frágil e humana condição.

Do Bem e da Pureza soberano
Foste o fruto de humana concepção.
Eu apenas serei um ser humano
Incapaz de atingir a perfeição.

Se como tu não passo de um mortal
E assumo por inteiro este conceito,
Eu não sou como tu, sou desigual,
Não sou como tu foste: um ser perfeito.

E por isso te quero e te encareço
E por isso te recordo e me ajoelho
Em tributo fraterno. E reconheço
Nos teus humanos actos o Evangelho.

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