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Aquela nuvem

Crônica | J. Bicca Larré*

Gosto do cambiante das nuvens. Gosto de sua inconstância, de seu caráter volúvel e, ainda assim, confiável. Observo-as com esse vagar que é delas: lento e desocupado. Elas são lânguidas e baldias.

Às vezes tiro pedaços do meu tempo para olhá-las melhor. São assim como nos aparecem. Brancas umas, os “cirrus”, promissoras de bom tempo, límpidos flocos do algodão celeste. Outras, os “nimbos”, são cinzentas, e se desfazem em água. E as há trevosas: os “cúmulos-nimbos” das tempestades.

As nuvens são como a vida, em seus momentos alternados de alegrias e tristezas, de bonanças e de percalços.

Nos claros dias de céu azul e sol resplandecente, as nuvens são oníricas e mágicas. Deslizam céu afora com alvura de neve e leveza de bailarinas.

Nuvens brancas enfeitam a alegria das crianças, o triste sorriso dos velhos e o sonho dos poetas. E convidam os taciturnos à magia de viver.

Num dia destes, uma nuvem assim passou sobre mim, numa iluminura de vida. E se me dourou a fronte envelhecida. Quem sabe, a última deste longo tempo que já dura tanto. E me deixou uma luz imensa, ofuscando-me a visão embaçada pelas cataratas do desencanto. Foi a dádiva de uma nova chama. Um convite à vida, mesmo que ela já esteja mofina, tediosa e enfastiada. Um chamamento à beleza da existência e à alegria de vivê-la. Um novo alento de crença nos nossos semelhantes. Uma nova certeza de que o bem é imensamente maior e mais consistente do que o mal que, por vezes, respinga sobre a gente.

Há pouco, alguém me enviou um despropositado, maldoso e gratuito e-mail que me aborreceu bastante. Não pelo conteúdo que negava totalmente qualquer contributo meu à cultura e à sociedade em que vivo. Mas pela agressividade e a desumanidade do propósito. Fiquei triste de ver que gente assim, de índole tão má, ainda existe.

Dias depois, recebi o honroso título de “Cidadão Benemérito de Santa Maria”. E, em seguida, em sequência, enormes e inequívocas manifestações de solidariedade, de fraternidade, de amizade e de estímulos, como a me mostrarem que a maldade, como aquelas nuvens negras, é passageira, embora deixe sobre nós, e por onde passa, um rastro de destruição e muito de desencanto.

Mas a toda tormenta sempre sobrevém a bonança. E, afinal, voltaram dias como essas nuvens brancas que, por vezes, pairam no céu da nossa vida.

14/08/2010 | N° 2579 – Diário de Santa Maria

*O jornalista e escritor José Bicca Larré nasceu em Alegrete/RS em 1929 e reside em Santa Maria/RS desde os anos sessenta, onde é funcionário público federal, aposentado do Tribunal Regional do Trabalho.

Nasci no Alegrete. Pela graça de Deus.” Que enormes e indissolúveis forças telúricas têm o Alegrete! Quem nasceu ou viveu lá, não deslembra nunca do lugar que fica entranhado na gente, como se fosse nossa patriazinha única e verdadeira. “O alegretense ostenta como uma condecoração preciosa o seu gentílico.” (J. Bicca Larré)

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