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Archive for the ‘Manoel de Barros – Gratuidade das aves e dos lírios’ Category

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Gratuidade das aves e dos lírios

Manoel de Barros*

Campo Grande, 27 de outubro de 1999

Sempre que a gratuidade pousa em minhas palavras,
elas são abençoadas por pássaros e por lírios.

Os pássaros conduzem o homem para o azul,
para as águas,para as árvores e para o amor.

Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore dele:
eis o orgulho de uma árvore.

Ser ferido de silêncio pelo voo dos pássaros:
eis o esplendor do silêncio.

Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas:
eis a vaidade dos rios.

Por outro lado, o orgulho dos brejos
é o de serem escolhidos por lírios
que lhes entregarão a inocência.

(Sei entrementes que a ciência faz cópia de ovelhas
Que a ciência produz seres em vidros
Louvo a ciência por seus benefícios à humanidade
Mas não concordo que a ciência
não se aplique em reproduzir encantamentos).

Por quê não medir, por exemplo,
a extensão do exílio das cigarras?

Por quê não medir a relação de amor
que os pássaros têm com as brisas da manhã?

Por quê não medir a amorosa penetração
das chuvas no centro da terra?

Eu queria aprofundar o que não sei,
como fazem os cientistas,
mas só na área de encantamentos.

Queria que um ferrolho fechasse o meu silêncio,
para eu sentir melhor as coisas increadas.

Queria poder ouvir as conchas
quando elas se desprendem da existência.

Queria descobrir por quê os pássaros escolhem
a amplidão para viver enquanto os homens
escolhem ficar encerrados em suas paredes?

Sou leso em tratagem com máquina;
mas inventei, para meu gasto,
um Aferidor de Encantamentos.

Queria medir os encantos
que existem nas coisas sem importância.

Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os arrebóis
são mais enriquecidos pelos pássaros do que pelos homens.

Eu descobri, com o meu Aferidor de Encantamentos,
que as violetas e as rosas e as acácias são mais filiadas
dos pássaros do que os cientistas.

Porque eu entendo, desde a minha pobre percepção,
que o vencedor, no fim das contas, é aquele que atinge
o inútil dos pássaros e dos lírios do campo.

Ah, que estas palavras gratuitas
possam agora servir de abrigo para todos os pássaros do mundo!

*Faleceu, aos 97 anos, no dia 13 de novembro de 2014, o poeta Manoel de Barros em Campo Grande. Filho de João Venceslau Barros, capataz na região, Manoel se mudou para Corumbá, no Pantanal sul-mato-grossense, onde passou a infância. Nos últimos anos, o poeta morou em Campo Grande e levou uma vida reclusa ao lado da esposa. Manoel Wenceslau Leite de Barros era advogado, fazendeiro e poeta. Nasceu em Cuiabá, no Beco da Marinha, às margens do rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916.

Obs.: Este texto foi uma sugestão do poeta Alceu que homenageou Manoel de Barros com o repasse do mesmo. Obrigada, poeta! Fiz a mesma coisa, afinal ideias boas a gente as segue.

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