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A sereia e os bêbados

Marcos Rolim – 08/97

Há um poema de Neruda que trata de uma fábula, a “Fábula da Sereia e dos Bêbados”. Diz o poema que todos os senhores estavam lá dentro quando ela entrou completamente nua. Eles tinham bebido e começaram a cuspir nela. Ela não entendia nada; acabava de sair do rio.

Era uma sereia que havia se extraviado. Os insultos corriam sobre sua carne lisa e a imundície cobriu seus peitos de ouro. Ela não sabia chorar, por isso não chorava; não sabia se vestir, por isso não se vestia. Tatuaram-na, então, com cigarros e com rolhas queimadas e riram até cair no chão da taberna.

Ela não falava porque não sabia falar. Seus olhos eram da cor de amor distante, seus braços construídos de topázios gêmeos, seus lábios se cortaram na luz do coral.

E, de repente, a sereia saiu pela porta. Mal entrou no rio ficou limpa, reluziu como uma pedra branca na chuva e, sem olhar para trás, nadou de novo. Nadou até nunca mais. Nadou até morrer.

Talvez, algum dia, tenhamos todos sido aquela sereia.

Quando crianças, não entendíamos nada e vivíamos imersos nas coisas simples e urgentes. Talvez o que chamamos “educação” tenha sido um longo percurso cheio de marcas na pele. Extraviados nesse mundo, nos pusemos a nadar e, quando “morremos”, nos tornamos adultos.

À nossa volta há uma “taberna” que recebemos de herança. Acostumamos-nos com ela a ponto de alguns entre nós imaginarem que ela seja o único mundo possível. Então, já não sonhamos: calculamos.

Então, já não nos preocupa a verdade, mas a versão. E ficamos complexos e misteriosos como polvos. E alimentamos rancores e espetamos como ouriços. Alguns entre nós têm o talhe das algas e seguem com as marés; outros, são peixes fosfóricos e iluminam.

A metáfora marinha me permite dizer que todos nós, diversos, estranhos, únicos, pertencemos a um mesmo mar e que bem no fundo de cada um habita a lembrança de uma sereia como a da fábula.

Uma sereia que nos fala da urgência e que nos segreda coisas simples como a justiça, a verdade, o amor ou a coragem. Algo inexplicável que os kantianos¹ poderiam chamar de “a lei moral dentro de nós”, fundamento de nossa própria condição de seres livres que fazem opções e que são por ela responsáveis.

Nosso mundo, parece claro, é cada vez mais inóspito aos que agem de acordo com o dever. Em larga medida, a ação moral passa a ser vista como um tributo à ingenuidade. A ideia de que devemos subordinar nossos próprios interesses à afirmação de interesses generalizáveis; a noção de que nosso próprio bem estar não pode ser alcançado nem mantido às custas do sofrimento ou da privação de quem quer que seja; a exigência por honestidade, equidade ou por posturas solidárias são, às vezes, explicitamente, consideradas “infantis” e ridicularizadas.

Ao final desse século, não seria demais insistir no ponto de vista contrário. Somos incontornavelmente adultos, é certo, mas nada nos obriga a pactuar com os fregueses daquela taberna.

¹ kantiano: relativo ao filósofo alemão Immanuel Kant ou à sua doutrina; (Aquele) que adere às ideias de Kant ou se identifica com sua doutrina moral; Que adere a moral como lei universal, Moralista;

A rigidez de seus pais, fez dele um moralista ao extremo, austero e de padrões tradicionais, transformou-se num legítimo kantiano.

[Dicionário informal]

Fim de texto_Immanuel Kant

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