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Archive for the ‘Maria Alice Estrella – Palavras’ Category

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Palavras

Maria Alice Estrella

Se você solicitou alvará de soltura, “habeas corpus” para sair de uma prisão que enclausurou sonhos e envelheceu emoções…

Se você se incendiou de paixão e lhe jogaram a água fria da indiferença, reduzindo tudo a cinzas e só lhe sobrou o rescaldo…

Se teve a coragem de encarar a realidade sem camuflagens, sem varrer a poeira do desagradável para baixo do tapete…

Se você alugou sentimentos por prazo indeterminado, mas rompeu algumas cláusulas contratuais por inadimplência, má administração, descuido e sofreu, consequentemente, ordem de despejo…

Se dispersou carinhos e foi pego em flagrante, engarrafado no tráfego de braços alheios, sem direito a perdão, nem pedido de desculpa…

Se você foi convidado a retirar-se da festa porque se excedeu em cobranças e bebeu demais da taça do afeto e acabou “sobrando”no contexto…

Se você deixou de ser imprescindível, passando a pertencer ao catálogo de móveis e utensílios, a exercício findo, dado por perdido…

Se pediu concordata, não escapou dos prazos e caiu em falência no campo do bem-querer…

Se você perdeu a bússola e quer, a todo o custo, manter o leme na direção certa em meio a raios, trovoadas e vendavais…

Se desligou o piloto automático, perdeu o contato com a torre de controle e está voando por instrumentos…

Se você está se sentindo abandonado numa praia deserta, mesmo hospedado num hotel cinco estrelas com tudo do bom e do melhor…

Se você se identifica com qualquer uma das citações acima e se solidariza com a “liberdade” de estar avulso e descompromissado no seu grupo de adultos…

Você é um dos tantos que sobreviveram ao terremoto que se desencadeia quando têm fim as relações amorosas. E, mesmo não querendo acreditar, você busca; não desejando errar, tropeça; evitando repetir histórias, reincide; fugindo do envolvimento, compartilha.
Na verdade, o que você não consegue é lidar com o término de um “viver a dois” porque colocou um ponto final na frase errada. 

O que acabou não foi o afeto; foi a vida em comum.   Impossível apagar, deletar um sentimento que ainda existe respirando na memória.  As lembranças são o sinal claro que lateja independente da nossa decisão de não mais desejá-lo.  Tudo que ficou impresso em você tem a marca do indelével.
Acontece que a relação interpessoal ficou fora de foco, desfigurou-se.  Desapareceu a sintonia fina, o ponto de equilíbrio, a identificação.

Você é um maior carente, apertando o botão do “tracking” para tentar acertar, dentro do seu visor interior, o semblante sem fantasmas, nem chuviscos.   Você deseja a nitidez de imagem.

Você emancipou o carinho, a ternura, a atenção, o cuidado por si próprio no cartório da experiência e com a carta de alforria, se entrega ao sabor do tempo do vir a ser.

Feliz?  Não sei.  Mas, com certeza, está tentando…

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Palavras_VictorHugo

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