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Archive for the ‘Mia Couto – Sapatos Sujos’ Category

Post texto Sapatos Sujos

SAPATOS SUJOS

Mia Couto*

Oração de Sapiência na abertura do ano lectivo no ISCTEM

(alguns enxertos)

“Falarei aqui na minha qualidade de escritor tendo escolhido um terreno que é a nossa interioridade, um território em que somos todos amadores. Neste domínio ninguém tem licenciatura, nem pode ter a ousadia de proferir orações de “sapiência”. O único segredo, a única sabedoria é sermos verdadeiros, não termos medo de partilhar publicamente as nossas fragilidades. É isso que venho fazer, partilhar convosco algumas das minhas dúvidas, das minhas solitárias cogitações.

Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico.

Primeiro Sapato
A ideia de que os culpados são sempre os outros.

…Estamos sendo vítimas de um longo processo de desresponsabilização. Os culpados estão à partida encontrados: são os outros, os da outra etnia, os da outra raça, os da outra geografia.

Segundo Sapato
A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho.

…O ditado diz. “o cabrito come onde está amarrado”. Todos conhecemos o lamentável uso deste aforismo e como ele fundamenta a acção de gente que tira partido das situações e dos lugares. Já é triste que nos equiparemos a um cabrito. Mas também é sintomático que, nestes provérbios de conveniência nunca nos identificamos como os animais produtores, como é por exemplo a formiga. Imaginemos que o ditado muda e passar a ser assim: “Cabrito produz onde está amarrado.” Eu aposto que, nesse caso, ninguém mais queria ser cabrito.

Terceiro Sapato
O preconceito de que quem critica é um inimigo.

…Mas a intolerância não é apenas fruto de regimes. É fruto de culturas, é o resultado da História.

Quarto Sapato
A ideia de que mudar as palavras muda a realidade.

…Sou de um tempo em que o que éramos era medido pelo que fazíamos. Hoje o que somos é medido pelo espectáculo que fazemos de nós mesmos, pelo modo como nos colocamos na montra. O CV, o cartão de visitas cheio de requintes e títulos, a bibliografia de publicações que quase ninguém leu, tudo isso parece sugerir uma coisa: a aparência passou a valer mais do que a capacidade para fazermos coisas.

Quinto Sapato
A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.

…A pressa em mostrar que não se é pobre é, em si mesma, um atestado de pobreza. A nossa pobreza não pode ser motivo de ocultação. Quem deve sentir vergonha não é o pobre mas quem cria pobreza.

…É urgente que as nossas escolas exaltem a humildade e a simplicidade como valores positivos.

… A arrogância e o exibicionismo são emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.

Sexto Sapato
A passividade perante a injustiça .

Estarmos dispostos a denunciar injustiças quando são cometidas contra a nossa pessoa, o nosso grupo, a nossa etnia, a nossa religião. Estamos menos dispostos quando a injustiça é praticada contra os outros.

Sétimo Sapato
A ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.

…Todos os dias recebemos estranhas visitas em nossa casa. Entram por uma caixa mágica chamada televisão. Criam uma relação de virtual familiaridade. Aos poucos passamos a ser nós quem acredita estar vivendo fora, dançando nos braços de Janet Jackson. O que os vídeos e toda a sub-indústria televisiva nos vem dizer não é apenas “comprem”. Há todo um outro convite que é este: “sejam como nós”. Este apelo à imitação cai como ouro sobre azul: a vergonha em sermos quem somos é um trampolim para vestirmos esta outra máscara.”

(Extraído do Vertical N° 781, 782 e 783 de Março 2005)

*Antônio Emílio Leite Couto ou apenas Mia Couto nasceu em 5 de julho de 1955 (55 anos) em Beira, Moçambique.

Cursava Medicina, quando logo iniciou os primeiros trabalhos no Jornalismo. Abandonou a medicina, e passou a se dedicar inteiramente à escrita.

Seu gênero literário é o realismo mágico, ficção histórica e teve influências de Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Eugênio de Andrade, Sofia de Mello Breyner, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa e José Luandino Vieira. É considerado um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores africanos de língua portuguesa.

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