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Post as duas canções do homem

As Duas Canções do Homem
e os sons secretos da cítara indiana

Rubem Alves

Bom lembrar, a quem não sabe, que a cítara é composta
de duas camadas de cordas superpostas, uma sobre a
outra, muito próximas, sem nunca se tocarem.

A camada de cima é sensibilizada pelo músico, e a de
baixo não pode nunca ser tocada pelos dedos.

Quem pouco entende dos segredos sonoros pode
perguntar-se por que razão um instrumento musical tem
cordas que não são tocadas.

A beleza desse mistério está justamente na harmonia
que enlaça as duas camadas.

Os dedos não tocam a de baixo para que suas cordas
possam vibrar pela magia de uma coisa muito mais
sutil que os dedos.

Tangidas pelos sons que brotam das primeiras, elas
reverberam e fazem nascer uma outra música, diversa
daquela que o artista produziu.

Eis o segredo.

Eis a sensibilidade.

Olhemos agora para nós.

Quem sabe sejamos cítaras humanas, que vivem dentro
de um encanto chamado vida, provocado pelo carinho
criador de Deus;

Lá dentro, no fundo de nossa essência, estão as
segundas cordas de uma única verdade, que os dedos
nunca tocam, mas que fazem ouvir uma outra voz, a
vibrar pelos escaninhos do silêncio…

Vem de lá uma canção imortal, jamais tocada, mas
que, se ouvida, pode dizer muito de nós.

Talvez seja esta a melodia diferente que os bons
médiuns ouvem.

Aqueles que lêem com amor o não-dito das palavras
humanas, separando a mentira da verdade, o joio do
trigo, e escolhendo o bem.

Talvez seja, essa música oculta, a melhor definição
de amizade.

Afinal, o que um amigo faz senão educar-se para
escutar nosso silêncio, que às vezes busca um abraço,
um momento de atenção para aplacar sua melancolia?

Um amigo é também algo mais.
É aquele que faz do seu sossego um recanto confiável,
onde o outro pode guardar seus segredos e não ter
medo de perdê-los.

Um amigo é aquele onde nossa segunda pauta encontra
eco, porque sabe que no âmbito da amizade a solidão é
um convite ao recolhimento,para que sejamos ouvidos,
para que possamos reverberar.

Nos braços de um amigo, nossa solidão se dilui no
suave aroma da partilha.

Você, a quem muitos consideram verdadeiro irmão,
pode treinar os ouvidos do sentimento para escutar
uma nova melodia.

Preste, porém, menos atenção no que as pessoas
irão tocar e mais nos sons daquelas cordas que
nunca serão tangidas.

Aproveite, também para apreciar a beleza da música
que brota de todo lugar.

Aí escutará a segunda canção de Deus, convidando-o
a que habite uma realidade nova:

a de ser, finalmente, um bom e melhor amigo, que com
muito amor, aprendeu a chamar os outros
para fora da solidão.

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