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Archive for novembro \25\UTC 2010

Post Livre e fácil

Livre e Fácil

Uma canção-vajra1 espontânea

Gendün Rinpoche2

A felicidade não pode ser encontrada
através do grande esforço e força de vontade,
mas já está presente no relaxamento aberto e no deixar ir.
Não se esforce,
nada há a fazer ou não fazer.
Qualquer coisa que surja momentaneamente no corpo-mente não tem qualquer importância real,
tem pouca realidade.
Por que se identificar e se apegar a isso,
passando um julgamento sobre ela e sobre nós mesmos?
Muito melhor é simplesmente
deixar todo o jogo acontecer por si mesmo,
levantando-se e caindo de volta como ondas —
sem mudar ou manipular qualquer coisa —
e perceber como tudo desaparece e reaparece,
magicamente, de novo e de novo,
num tempo sem fim.
Apenas nossa busca pela felicidade
nos impede de vê-la.
É como um vívido arco-íris que você segue sem nem mesmo pegar,
ou como um cachorro correndo atrás do seu próprio rabo.
Apesar de a paz e a felicidade não existirem
como uma coisa ou lugar reais,
elas estão sempre disponíveis
e o acompanham a cada instante.
Não acredite na realidade
das experiência boas e ruins;
elas são como o tempo efêmero de hoje,
como arco-íris no céu.
Querendo agarrar o inagarrável,
você fica exausto em vão.
Assim que você abrir e relaxar este punho fechado do apego,
o espaço infinito está lá — aberto, convidativo e confortável.
Faça uso desta espaçosidade, desta liberdade e bem-estar natural.
Não procure mais qualquer coisa.
Não vá para a floresta confusa
procurar pelo grande elefante desperto
que já está descansando quietamente em casa,
na frente de sua própria lareira.
Nada a fazer ou não fazer,
nada a forçar,
nada a querer
e nada a perder —
Emaho! Maravilhoso!
Tudo acontece por si mesmo.
(Lama Gendun Rinpoche. Free and Easy: A Spontaneous Vajra Song.
In: Nyoshul Khen Rinpoche.
Natural great perfection: Dzogchen Teachings and Vajra songs. Ithaca: Snow Lion,
1995. Pág. 93-101.)

1Vajra (é uma palavra sânscrita que significa tanto diamante quanto relâmpago. Como diamante, remete à indestrutibilidade da essência espiritual. Enquanto relâmpago, como aquilo que ilumina velozmente.

2Quem foi Gendun Rinpoche? Lama Gendun Rinpoche foi o mestre de meditação e líder espiritual dos quatro Dhagpos3 Ele passou mais de 30 anos de sua vida em retiro solitário no Tibet e na Índia. Gendun Lama Rinpoche foi um dos últimos grandes mestres da velha geração de Lamas tibetanos. Tudo o que ele ensinou havia sido experimentado em primeira mão durante seus retiros nas numerosas cavernas no Himalaia e na Índia. Ele representava a quintessência do iogue4 plenamente realizado e os puros monges perfeitamente.

3Quatro centros que realizam a função de preservar e transmitir o ensinamento do Buda. Eles formam um conjunto em que cada um tem uma atividade complementar para os outros três.

4Um yogi ou yogin é um termo que caracteriza os praticantes de yoga. Esta designação é mais usada para praticantes avançados. A palavra “yoga” em si – oriunda da raiz Sânscrita yuj (“unir”) – é normalmente traduzida como ‘”união” ou “integração” e pode ser entendida como a união com o Divino, ou integração do corpo, mente, e alma.

Lama Gendün Rinpoche
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Post gaiolas e asas

GAIOLAS E ASAS

Rubem Alves

Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo “atacados” porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: “Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas”.

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.

Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando… O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos. Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguentado… Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.

Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas? Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?

O que os burocratas pressupõe sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é “dígrafo”? E os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual a utilidade da palavra “mesóclise”? Pobres professoras, também engaioladas… São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: “Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira”.

O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era “ferramenta” e “brinquedo” do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender “ferramentas”, aprender “brinquedos”.

“Ferramentas” são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. “Brinquedos” são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.

Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo.

Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer… Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: “Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?” Se não for, é melhor deixar de lado.

As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos.

Há esperança…

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Posto Brevememudo

Breve me mudo…*

Marina Colasanti

Estou de partida. Breve me mudarei para a curva do teu braço. Busco a terra sem vento, a mansa terra do teu peito. E a batida surda e quente do magma mais profundo para embalar o meu sono. Busco a tranqüilidade da enseada.
Já conheci as águas que eu preciso saber. Fui bem além das colunas de Hércules, e há muito descobri que, por mais longe o mar, jamais despenco.

Desbravei os mares, lancei-me por entre espumas. Naveguei seguindo as estrelas do céu, contando as estrelas do mar, até chegar a portos dos quais nem suspeitava a existência.

Agora é tempo de lançar meus braços’a água, deixando que enlacem nos rochedos ancorando-me ao meu destino.
Escolho o teu lado esquerdo , onde me beija o sol poente. E espero que tua mão direita amaine minhas velas.

Assim, acima do teu coração, encosto a cabeça.
E pequena como um grão, deito raízes.
Aprenderei a conhecer-te através da planta dos meus pés, como o cego sabe onde pisa, como o índio que conhece a trilha.

Se for mansa a maré das colinas, terei certeza de que dormes, ou pensas em silêncio. Se de repente meu solo se encrespar tangido por um vento só seu, será o frio que te toca. O medo, saberei no tremor subterrâneo. E quando o suor correr farto enchendo rios sem peixes, ameaçando me levar, será tempo de calor, será o verão cantando na tua pele.

Aprenderei a tatear-te com as mãos, procurar meus caminhos nos vales dos músculos. Fluirei devagar, dormirei nas axilas.
Não preciso de casa.
Não preciso de abrigo.
A terra de tua carne é quente, e nada me ameaça. Posso deitar-me nua, tranqüila, ou ficar acordada olhando para o alto. O céu é calmo, as nuvens passam indo a outros lugares. Nenhuma traz a chuva ou a tempestade.

Não preciso de pente, não preciso de panos. O orvalho da tua pele me banha de manhã, e a tua respiração arruma os meus cabelos.
Só quero um cavalo.
Galoparei com ele as dunas do teu corpo, descerei pelos braços, avançarei pelas mãos, arriscando-me a queda nos penhascos dos seus dedos.

Explorarei teu ventre, matarei minha sede no poço do teu umbigo. E armada de desejo, penetrarei na selva de teus pêlos, emaranhada e perfumada noite, delta dos sumos, labirinto que imperioso me chama e suave me perde.

Só depois, percorridas as pernas, visitado os pés, voltarei corpo acima; ventre, peito, subindo em peregrinação até o pescoço, repousando no vale da omoplata.
Talvez leve um cantil, para a dura escalada do teu queixo. Subirei com cuidado, procurando a caverna das orelhas para repouso e abrigo.
Barulho não farei, prometo. Nada que te perturbe.

Talvez no dia seguinte, ou mais ainda, passando-se outro dia na difícil subida, eu procure chegar até os teus olhos.
Se estiverem fechados, sentarei com paciência esperando o milagre da íris descoberta, o nascer dos olhos que se renova a cada despertar, o astro de luz surgindo sob o horizonte da pálpebra .

Se estiverem abertos, sentarei a beira deste lago, fonte, olho d’água, encantada com a dança dos reflexos ilusórios, peixes deslizando suas sombras sobre um fundo sem algas. E haverá um momento em que vencendo o medo, mergulharei na transparência para nadar em direção ao redemoinho negro da pupila.

A aresta do nariz é perigosa.
Eu bem conheço sua linha sinuosa, sua falsa maciez sobre o duro arcabouço.
Não convém que a acompanhe. Seguirei pelo lado, encostando-me às ventas, esgueirando-me para não ser tragada.  Não tentarei desvendar o mistério do sopro.

À boca chegarei com respeito. Irei pelo canto, para descer ao lábio inferior, o mais carnudo. Avançarei deitada, rastejando de leve na pele úmida, até chegar à borda. E me debruçarei sobre suas palavras…

Breve me mudo para a curva do teu braço.
Não saberei mais de você do que já sei.
Nem você saberá mais de mim.
Mas talvez assim tão perto, encostada na raiz do teu ser, eu possa me esquecer de onde começo, e me esquecer em ti na minha entrega….

* Desenho da ilustração: uma pintura de Giuseppe Dangelico – Nudez

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