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Archive for setembro \21\UTC 2015

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Crianças e velhos

Crônica | J. Bicca Larré

Se é verdade que as crianças um dia ficarão velhas, não é menos verdadeiro que, quando estiverem velhas, voltarão a ser crianças. A aurora se tornará crepúsculo e o anoitecer voltará a ser o despertar de um novo dia.

Nosso humor também é assim. Tenho andado triste e taciturno por efeito de indisposições intestinas. Não me refiro ao funcionamento dos intestinos. Refiro-me às tropelias que se situam mais acima. No coração e no cérebro, onde deveria, aos 81 anos, viger a paz do espírito.

Mas esses são os dias tumultuados que, exceção ou não, a todos nós acometem e nos deixam acabrunhados. Passarão. Tudo passa. O incômodo é que nunca nos preparamos para os dias tempestuosos. Ao contrário, estamos sempre prontos e desejosos de radiosos dias de sol e de amenas alegrias.

Ocorre, entanto, que o nosso humor oscila tão rápido que novamente nos sentimos envoltos na vertigem das “montanhas russas” da nossa infância. Havia a subida longa e alta dos carrinhos e, depois, a descida alucinante do despencar das alturas, no vácuo e sem aviso.

E nossas entranhas físicas e emocionais subiam aos píncaros do prazer e da alegria e de lá voltavam nos horrores do medo, dos terrores da queda livre e no pavor da síndrome de pânico. Aquela incômoda sensação de que o estômago subia à garganta e depois descia à pélvis.

Há que reagirmos a esses estados passageiros de desconforto espiritual, como me aconselha uma querida amiga que usa de e-mail para me dar carinho. Eu sei que é assim. Mas falo de dentro de uma dessas nuvens momentâneas. E não posso ignorá-la, nem passar por cima dela, incólume. Eu não seria eu mesmo nesses instantes que, às vezes, duram dias. Tenho de vivê-los, afinal, no limite sofrido das minhas emoções. Não sou de usar máscaras. Vivo todos os dias. Nesses maus dias, também. E, como dizia Veppo, “há certos dias que melhor seria dormi-los, já que não podemos morrê-los!”

Melhores dias virão. Eles sempre chegam. Depois das piores borrascas vem a calmaria. Beethoven descreveu esses momentos de forma primorosa na sua 6ª Sinfonia, denominada Pastoral. Ali, os pastores dançam a ciranda da alegria, ao depois da tempestade de trovões e aguaceiro, de ventanias e temores.

Fará sol de novo nos meus dias. Até que, enfim, chegue o fim. Mas sei que haverá nova luz no andar de cima.

6/11/2010 | N° 2653 – Diário de Santa Maria
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