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Archive for fevereiro \24\UTC 2013

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Lindas e feias

(Paulo Mendes Campos)

“No meu tempo de menino, em minha cidade, havia de moças bonitas uma dúzia e mais três. Três que a gente não tinha muita certeza de escalar no time de cima. O número é estimativo, mas a verdade é concreta. Minas ainda se espreguiçava na renda agropastoril. Confinada à montanha, precariamente educada e vestida, anemizada por sete mil preconceitos, a moçada mineira gozava uma juventude curta e sem brilho.

Moças bonitas, é claro, surgiram, raramente embora, nos mais imprevisíveis distritos, alumbrando os municípios. Em São João Del rei, por exemplo, Luzia uma garota meio pálida, como convinha aos madrigais, mas suavemente linda na aristocracia de seu perfil. Para os lados do Triângulo, em Uberaba e Uberabinha, falava-se de tempos em tempos em novas beldades despontadas.

Do Norte, do Sul, da Zona da Mata, Varginha, Carmo do Paranaíba, Montes Claros, Três Corações, Figueira do Rio Doce, de qualquer canto, próspero ou emperrado, podia chegar a notícia duma estrela de primeira grandeza.
Uma constelação esparsa iluminava a província de Marília. As jovens se casavam com uma pressa natural e financeira; a expectativa ansiosa voltava, outras moças bonitas começavam a brilhar aqui e ali, por todo o áspero e melancólico território.

Em suma, a beleza feminina era um acidente individual, gratuito, raro e generoso como o talento. Não havia condição social para a existência numerosa e permanente de mulheres belas. O milagre acontecia ou não acontecia; quando acontecia, o rapaz solteiro arregalava os olhos pedintes, na esperança privilegiada de desposar a donzela de peregrina beleza. Não o conseguisse, durante um ano e tanto era o rapaz venerado localmente como portador duma paixão magnífica e incurável. O cultivo da dor-de-cotovelo alheia pelas populações substituía a leitura de romances. Depois, o incurável se curava e casava com qualquer prendado bagulho, fecundando as Gerais.

Para o poeta, Minas não há mais. De fato, mudou muito, fábricas, piscinas, campos de esportes, rodovias, aeroportas, foram modificando depressa o regime social. Exercícios físicos e dinheirinho e dietas cumpriram rigorosamente o seu dever: entre as gentes mais favorecidas já se distingue uma boa média de beleza e saúde.

Na fase poética da feiura, o mineiro descia para o Rio como alma do purgatório ingressa no clarão do paraíso: arrebatada pela quantidade e pela qualidade dos anjos.

Já quando o trem noturno fervia sob o sol de Cascadura, os olhos de Minas desfrutavam as premissas dum andar diferente, ancas descontraídas, ritmos novos, formas que não se ocultavam sob as vestes, pernas fornidas e nuas, timbres de voz sem timidez – a carioca. Às moças montanhesas faltava ( se me entende por favor ) um vago toque de obscenidade, que é a raiz do magnetismo animal.

Era o Rio uma cidade fascinante e perigosa, feita de braços, coxas, seios, cabeleiras, lábios… Copacabana doía de tanta mulher linda. Nós mineirões, disfarçávamos o terror (que terror?), esse que a mulher bela e desenvolta provoca nos homens sombrios e virtuosos de gestos.

Nem só o céu, diz o mestre, talha a bondade, mas também a timidez. Éramos bonzinhos e secos. Os grandes pecados públicos não eram para Minas Gerais, e o Rio pecava as escancaras, com alegria e confiança no perdão.

Mas Minas daquele tempo, oh, Minas Gerais!”

mg

Crepúsculo, Alma Welt nas Montanhas de Minas Gerais – óleo s/ tela de Guilherme de Faria, 2013, 33x46cm, (Finalizado) acervo do autor, São Paulo

 “OH! Minas Gerais, quem te conhece não te esquece mais!”

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Post_Luiz Maia_Album de fotografia

Luiz Maia

Álbum de fotografias

Quem não se lembra daquelas fotos tiradas com a família, ou em companhia dos amigos em algum lugar qualquer?

Era um tempo de tantos abraços, tantos encontros… Eram tantas as alegrias que não dá para esquecer. Bastava uma viagem, um casamento, um batizado ou a primeira comunhão de uma criança para as pessoas registrarem o fato por meio de fotografias que ficavam para a posteridade.

Mas o tempo de visitas e dos encontros fortuitos passou – virou saudade e o que vale é recordar. Hoje tudo é diferente, tudo mudou. O que resta agora é a lembrança de uma época rica em confraternizações. Por que já não vemos mais nossos parentes com a frequência de antes? Qual a causa de não nos encontrarmos mais com nossos primos, tios e tias, como ocorria antigamente? Por que a vida costuma afastar uns dos outros, friamente, sem nenhuma explicação?

Atualmente quase ninguém sabe onde os parentes moram, poucos se preocupam com a vida que eles estão levando. Eles só fazem parte simplesmente dos álbuns de fotografias. Já se foi a época em que os pais pegavam seus filhos aos domingos para visitar os avós. E ao chegar por lá muitos parentes já estavam presentes. E a festa estava formada! Os dias de domingo eram aguardados com muita expectativa. Enquanto isso a vida da gente segue seu curso normal sem que os saudáveis encontros não mais aconteçam.

A solidão apregoada por muitos pode ser explicada pela falta das visitas que tanto bem causavam às pessoas. Muita gente parece ter esquecido os benefícios causados por esses encontros. O ser humano é muito estranho. Nunca se viu tanta individualidade como agora. As pessoas expressam um tipo de carência explícita, como quem procura infindavelmente por alguém, ressentindo-se da conversa olho-no-olho. Muitos seguem suas vidas sentindo a falta de abraços, outros buscam ouvir uma piada que somente aquele tio sabia contar. O que se percebe são palavras que ficam presas na garganta da gente sem ter a quem dizê-las.

Como somos complexos em essência, não é nada prazeroso viver assim. Talvez só a maturidade nos permita fazer esse tipo de reflexão. A verdade é que deveríamos ser mais presentes, estar mais vezes juntos, sem esquecer o outro nem parecer indiferente. Quando as pessoas estão mesmo interessadas uma na outra, tudo fazem para encurtar distâncias.

[www.luizmaia.blog.br]
Umsimplesabraço

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